Bruce Leroy | Escrito Por Nilton Victorino Filho

No final dos anos 70, comecinho dos 80, não havia epidemia que superasse o tal do Kung fu, esses filmes, geralmente de pouca qualidade técnica, eram produzidos aos milhares e entupiam os cinemas da cidade, assim como as academias, tinha uma dessas, a cada 50 metros do centro de São Paulo.
Aos milhares, os jovens se inscreviam nessas academias (que eles chamavam de templos) e seguiam rituais e doutrinas do ensinamento Shaolin, coisa de maluco mesmo.


O Educandário estava contaminado, havia um punhado desses doidos, circulando por lá, com suas sapatilhas e seus quimonos coloridos. Para seguir a tendência vigente, no cinema do Educandário, passou a ser exibido esse tipo de filme, em lugar das habituais fitas do Macister, os Bang Bangs e o brasileiríssimo Mazzaropi.


Ao fim de cada sessão, os internos saiam imitando os atores e antes de chegarem a seus pavilhões já estavam trocando tapas, mas, pra dizer a verdade, eles não faziam mal pra ninguém e, a paisagem ficava até mais divertida, entre os meus amigos da época, eu posso destacar dois, o Tadeu neguinho do 11 e o Avelino do 13, esses eram dos mais fanáticos, trajavam-se e falavam feito os gafanhotos chineses, logo de manhã, os víamos, em seus exercícios matinais.


Por esse tempo, também nascia outro movimento, esse não era estimulados pela mídia, pelo contrário, esse foi um movimento à margem das conveniências sociais e visava consagrar os jovens da periferia, seus adeptos iam pros bailes e shows de cantores e bandas negras, era chamado de Black Power, mas ficou mais conhecida mesmo, como “função”. Se a primeira tribo pregava a não violência, a segunda não abria mão dela pra se posicionar.


Eu fazia parte do segundo grupo, mas nem por isso, deixava de ser amigo dos maluquinhos do Kung Fú, saíamos pras baladas, todos os fins de semana e em bailes de São Paulo toda.
Nossa gang era constituída de internos do E.D. D, internos da FEBEM da Raposo Tavares, moradores do Arpoador, do Jardim Peri Peri e uns caras de Pinheiros, somávamos uns 50 integrantes, não havia um líder, propriamente dito, mas, a única pessoa que tinha atitude para sê-lo, seria o Viana do 14 esse tinha “sangue no olho”.
E, ainda que a palavra gang, nos leve a uma ideia de crime, eu e muitos dos integrantes, só estávamos ali, pela dança, a música, as minas e as cervejas… Não, necessariamente, nessa mesma ordem.


Em algumas ocasiões, o Viana esteve prestes a acertar a orelha do Avelino, ele tinha sede, pra saber a eficácia das artes marciais diante da pegada firme do boxe, várias vezes eu cheguei em cima da hora e separei os dois, desde criança, eu era a única pessoa que ele ouvia, mas ele havia prometido que ia à forra.


Numa ocasião, quando chegávamos à sede do Jd Arpoador, onde havia uns bailes nos sábados à noite, fomos avisados que um grupo tinha encurralando um sujeito no banheiro e ele era interno, pagamos o ingresso e fomos lá, socorrê-lo. Lá, encontramos um pessoal do João XXIII, tentando arrombar o banheiro, dentro do banheiro estava o Avelino, o gafanhoto, que se vestia num traje completo de monge chinês, havia tentado cantar a menina de um deles, quando percebeu a nossa presença, o infeliz abriu a porta do banheiro, levou um soco, nós reagimos à altura e virou briga de gangs, pancadas, cadeiradas, uma faca, socos… No meio da briga, alguém que estava do nosso lado sacou do 38 e atirou pra cima, os caras do João XXIII correram.


Agradeceu-nos, o Avelino e dissemos não ser nada de mais, nosso código de conduta era bem claro: “jamais deixar um irmão do Educa na mão, isso nunca foi desrespeitado”.


Na volta eu estava no meio dos dois, voltávamos pro pavilhão 22, acima do Cemitério Israelita, uma lua nova quase vermelha dava o ar de sua graça e dava pra ouvir os nossos passos no chão de pedra da Rua Osvaldão, o Avelino quebrou o silencio:
Obrigado mesmo, vocês salvaram a minha vida. _Não foi nada, você sabe! Disse eu e citei o código sagrado dos internos: Brigou com um, brigou com todos.


O Viana não aguentou e reclamou:
_Pra que toda essa baboseira de artes marciais, se na hora do vamos ver, o cara sai correndo pro banheiro.
O Avelino, ainda massageando os hematomas protestou:
_Na hora do vamos ver, quem estava me batendo era você.
O Viana tranquilamente olhou pra lua e disse:
_Bati em uns sete caras… Seis pra me defender… E em você, eu bati pelo prazer mesmo, só pra provar que o Boxe é superior.
Dias depois, o Avelino lançou mão de suas roupas de monge Shaolin e matriculou-se numa academia de boxe. A última noticia que eu tive dele foi essa:
“José Avelino de Palma, jovem de São Paulo defende título amador de boxe, no Chile”.

2 Comments on “Bruce Leroy | Escrito Por Nilton Victorino Filho

  1. LEMBRO DO CHINA E DO AVELINO DO LAR MAIS CONHECIDO POR DJAVAN , TINHA UM BIRIMBAL , MUCHACO , E ROUPAS DAS ARTES MARCIAIS .

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