O Segredo. | Escrito Por Nilton Victorino Filho

Essa postagem, eu vou fazer com a colaboração do meu ex-aluno Ademar Jose da Silva, que nasceu vizinho ao Educandário Dom Duarte e é, como eu, tarado pelo Educa.
Nossa, esse parágrafo ficou bem técnico, a professora Elizabeth, na certa me elogiaria, mas vamos à aventura de hoje.


O Paulo Régis era um amigo que morava no pavilhão 12, um amigo querido, no mesmo dia que cheguei, ele chegou também, no entanto, o seu jeito meio espalhafatoso, escandaloso e delicado ou feminino demais, fazia com que os outros meninos não confiassem um segredo a ele, todos sabiam que o Paulo era fofoqueiro mesmo, por conta disso, era muito comum o fato de ele viver, quase sempre sozinho.


A parte de trás do teatro era uma área neutra, compreendia uns vinte metros quadrados de solo plano, uma grama agradável crescia ali, da porta de saída, à esquerda, um barranco levava ao bananal do 14, à direita se chegava ao pavilhão 15, em frente se subia ao campo do 15, que era vizinho ao campo do 17.


Poucas crianças brincavam nessa grama, pela tarde o teatro ensombreava essa parte e uns guris do 14 jogavam bola ali, vinham uns guris do 12 e do 13.
Um dia o Paulo desceu com os meninos e, como não gostava de jogar bola, ficou na escadaria da frente por um tempo, quando achou que já havia passado da hora de voltarem para o pavilhão, foi à cata dos meninos, deu a volta no prédio e não achou ninguém.


Ele me contou a história como se fosse um caso de abdução, na época, essas coisas eram chamadas de UFO e, eram tratadas com muito medo, aterrorizavam as crianças com isso. O Paulo Régis me chamou para investigar, sabia que eu adorava ficção cientifica, me propus a ajudar o amigo prontamente. Sábado de tarde, nos encontramos na jaqueira e descemos para a frente do teatro, alguns guris jogavam lá no fundo, ficamos nas escadas um bom tempo, quando ouvimos um barulho vindo do lado de dentro do teatro.


A porta trancada e o Paulo tentando olhar pela fechadura, eu disse:
_. Espere aqui, que vou chamar ajuda.
Corri para os fundos e ele a esperar a ajuda, passados alguns minutos, como eu demorava a voltar, ele foi me procurar.
Não me achou e, na verdade, não tinha mais ninguém por lá, ficou abismado, alguns segundos com os olhos arregalados, passou as mãos na cabeça e, finalmente gritou:
_Vá de retro, satanás.
E disparou numa carreira, foi contar a todo mundo que havíamos desaparecido debaixo dos olhos dele.


No dia seguinte, ao encontrá-lo, disse que não me lembrava de nada do que havia me acontecido, depois do barulho do teatro, os outros meninos disseram o mesmo.
Isso contribuiu para que o teatro levasse a fama de mal-assombrado e o Paulo nunca mais foi lá, a não ser nas horas de missa e cinema.


Cinco anos mais tarde, quando todos os internos com mais de 14 anos foram transferidos para o lar 22 e, eu já havia me esquecido desse episódio, o Paulo Régis me pediu para dizer a verdade e, pela fidelidade que eu devia aos meus amigos, mantive a minha versão, ele fez o sinal da cruz e bateu na madeira.
Bom, para o Paulo Régis eu não contei o segredo e, como sei que você leitor é de confiança e vai me guardar esse segredo, vou contar.


A porta dos fundos do teatro era daquela com quatro divisórias, a penúltima parte dela era removível, muito poucos meninos sabiam disso, houve até um pacto de segredo eterno.


Uma vez dentro do prédio, descíamos ao porão do palco ou subíamos ao mezanino, todos os instrumentos da fanfarra eram nossos, todas as fantasias de cena e todos os rolos de filmes, estavam sob nosso poder.

– Escrito Por Nilton Victorino Filho

– Brotherhood of Sincerity

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