A Natureza De Cada Um. | Escrito Por Nilton Victorino Filho

Quando o seu Hélio do BNH presenteou a mim e ao meu amigo maior Viana, um mundo novo se mostrou, todas as caminhadas que fazíamos passou a ser sobre duas rodas.

Do cenáculo à portaria, da igreja à olaria, do Educandário á Vila Borges, se gastava muito pouco tempo, sobrava mais tempo para as aventuras, íamos mais longe, mas, o toque da volta ao Educa era sempre a explosão da pedreira.

Por essa época, os dois neguinhos do 14 se afastaram dos demais, o sexteto de antes virou dupla, por esse tempo, crescemos e evoluímos.

Quando estávamos fora do território do Educandário, quase sempre nos encontrávamos com o Zanella.

Zanella ou Juca, como muitos o chamavam, era externo, ainda que muitas pessoas acharem, pelo comportamento, que ele fosse interno do Educa.

Esse moço era uns quatro anos mais velho que eu, dois a menos que o Viana, ganhara fama no grupo escolar por memoráveis brigas e pelo fato de ser namorador, as duas coisas ele fazia por compulsão.

A bicicleta dele era muito mais equipada que as nossas, a bicicleta do Viana era bem cuidada, a minha não.

O Viana tinha trato para a mecânica, vivia sempre com a chave de boca no bolso, eu, apesar de meu pai ser o melhor mecânico do Bexiga, essas coisas de hidráulica e mecânica, me eram alienígenas, até hoje não entendo por que as duas palavras são acentuadas.

Mesmo que a bicicleta do externo ser mais bem equipada, na hora da corrida, ele nunca vencia, por conta disso, marcamos uma corrida valendo Tubaina, o evento foi batizado de “Grande prêmio do Arpoador.”

Tal evento estava marcado para acontecer 9:00 horas da manhã, atrasou por que apareceu um competidor de última hora, o maluco do Oscar apareceu com sua Barra forte caindo aos pedaços e disse que queria entra, a menos que estivéssemos com medo da categoria dele.

Dito assim, ficou difícil de não aceitar a participação do albino, portanto, mais vinte minutos para explicar o percurso, casamos o dinheiro da tomba, o Oscar se ofereceu para guardar o dinheiro, rimos a valer, a natureza dele era afanar, o dinheiro ficou aos cuidados do Viana.

Saímos juntos, da frente do Mercado Paraná, todos parelhos, pequena vantagem para o Zanella, o Albino era o último, seguimos a até o ponto final da Castro, voltamos a mesma pista, fizemos a vota no quarteirão e entramos na Juliante Vigna, a dona Tereza nos acenou na sede, cruzamos a rua toda, atrás da padaria Moreninha havia um escadão, abaixo o campo do Viracopos, bicicletas na mão no escadão para subir os degraus, na parede oposta havia uma grande pichação com letras de arte…”Maconheiros do Arpoador”, subimos nas bicicleta e freamos na descida, do lado direito o BNH e do esquerdo a favela gigante.

Caímos para o lado esquerdo, na bica, as pessoas faziam fila para encher o baldes de água, seguimos a rua do Balão, descemos das bicicletas e os lances de escadas davam para o labirinto de ruelinhas, o Oscar sumiu numa delas, no alto do morro vinha um som do samba do Martinho, uma mulata descia a escada, na profusão do som ela cadenciava o andar, exalava em perfume de patchouli e seu sorriso era lindo, dobrei a esquina da viela, olhei para trás e o Zanella havia sumido, a mulata também.

Dobramos e quebramos, para a direita e para a esquerda e saímos perto da rua Vinte, ainda com as bikes nas mãos, montamos-as na rua João de Lourenzo, uma banguela livre, já se via o final da corrida e restavam apenas dois dos participantes.

Agora era só frear, ao lado do Israelita dava para ver o barranco do Educa, eu estava na frente, uns dez metros e já saboreava o doce prazer da vitória.

Mas, era eu e, coisas estranhas sempre acontecem…

Quando eu percebi, o guidão saiu na minha mão, deu tempo ainda de gritar:

_Valha minha Nossa Senhora.

Frações de centésimos de segundos entre o trava das rodas, o voo livre e o estatelar no asfalto, instintivamente levanta o rosto.

O pessoal da rua Osvaldão, que na época se chamava Antonio Luiz Vieira, correu para me socorrer, faltavam poucos metros para o bar do Barroso e muito menos para o barranco.

Como era da natureza do Viana, ao me ultrapassar, gargalhou alto do meu azar, mas, voltou para acudir.

A cena foi triste, o Viana voltando e o Oscar passando por ele com sua improvável Barra forte enferrujada.

Arranhei feio o braço, aguentar o albino rindo doeu mais, só vimos o Juca dois dias depois.

Enquanto a gente saboreva a Tubaína, me assombrava o que estava por vir mais tarde…a Benzetacil do irmão Wilson.

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