Um Titulo Na Marra | Escrito por Nilton Victorino Filho


No primeiro ano do Dínamo, 1993, ainda jogava o Buda na zaga, o Alex Diniz e o Ademar Jose da Silva compunham o meio de campo com o Alemão Jose Roberto, o Cosme Teodoro, o Dener, Ropolho, Chuchu, Batata, o Nilton filho do Batista da marcenaria e o Lucas Sócrates faziam um time leve e rápido e o Elves Rocha, nosso goleiro, pegava tudo e ainda fazia gols, como atacante, mas, nos faltava o título da casa.


No fim do ano, chegamos à final do campeonato do João XXIII.
O seu Francisco do Palmeirinhas era o organizador, o Barcelona do jd Arpoador foi o outro finalista.


Ainda que, meu time estivesse voando baixo, não tínhamos reservas, geralmente a parada se resolvia na hora e, se alguém se machucasse, ficava em campo ou o time jogaria com menos um atleta, até porque, só tínhamos 10 camisas e a do goleiro. O campo do Uirapurú estava lotado, o jogo não deixaria nada a desejar, na véspera, havíamos participado de um festival no Rio Pequeno e a qualquer hora o time ia dar sinais de cansaço, o técnico do Barcelona sabia disso e veio preparado. Trouxe dois time para campo.


A habilidade do meu meio de campo era conhecida, o Alemão e o Pézão mandavam em campo e levamos o jogo para o intervalo com a vantagem de 2×0, na volta, havia um novo time pra enfrentarmos, totalmente descansado, se o nosso time já´estava ficando sem fôlego, eles estavam novinhos em folha.


Na metade do tempo, eles marcaram o primeiro gol e não demorou para vir o gol de empate, sem nada mais a fazer, mandei meu time recuar para aguentar o empate, foi então que reparei que o time que saíra de campo, estava todo à sombra do vestiário, esperando para voltar na prorrogação.


Nessa época, eu não tinha um auxiliar, minha filha, que seria mais tarde a minha auxiliar ainda tinha 6 anos e estava lá, olhando os irmãos dela…tive que discutir comigo mesmo, para acertar o que eu ia fazer, para sair daquela zica. Meu time, já exausto, não sofreu o terceiro gol e, conforme a partida ia se aproximando do final, o adversário foi diminuindo os ímpetos, à essa altura o time reserva deles já se aquecia.


Fui até o carrinho do meu bebê, que dormia, vigiado pelo cachorro Boomer e peguei o regulamento do campeonato, olhava para o jogo, gritava com os jogadores e disfarçava que lia o regulamento, pois, sabia que todos me observavam.


O juiz apitou o termino, o outro time que já havia se aquecido, entrou em campo, para chutar bolas ao gol, como é hábito dos meninos, meu time saiu, mandei que se sentassem na arquibancada, eles estavam só o pó da rabiola. O juiz já saíra do campo e conversava com o seu Francisco, no barzinho dele, tomei folego, vesti a máscara e fui ao seu encontro.


_E aí, juiz…vai marcar o nome dos batedores agora???
O juiz, que era filho do seu Francisco, chamou o pai, o pai se mostrou mais surpreso que o juiz, foi chamar o Arlindo e o Nenê do Barcelona.


Começaram um bate boca sem fim, acerca do regulamento do campeonato, outras pessoas vieram em socorro do adversário e outras, para socorrer os organizadores, no outro lado do campo eu podia visualizar os meus filhos e os atletas do Dínamo, sentados à minha espera, o bate boca se acalorava, fomos todos para mesa, procurar o regulamento, não havia nenhum por lá e, era só o que eu precisava saber.
Com o meu regulamento na mão, gritei firme:

_O regulamento, que todos assinaram, é bem claro, em caso de empate na final, a disputa será nos penaltes_enquanto lia, mostrava como dedo indicador a cláusula e o paragrafo. Os dirigentes do Barcelona mostraram-se indignados, parte da torcida gritava para ter mais jogo, a outra parte pedia para se cumprir o regulamento.
Respirei fundo de novo e fui calmamente à mesa e disse:
_Se vocês fazem tanta questão desse título, podem leva-lo, passa para cá o troféu de vice que eu já estou cansado disso tudo…e caminhei lentamente, para o lado que a minha turma estava acampada.


Antes que eu pudesse chegar até a metade do caminho, o juiz me alcançou e disse para eu dar a lista dos 5 batedores.
Ganhamos nos penaltes por 5×3, arrebanhamos o troféu e comemoramos.
Quando estávamos saindo do campo, bem ao lado da creche, o Aléx, que havia pego o regulamento, leu:
_”Em caso de empate na final, haverá prorrogação com 2 tempos de 15 minutos”.
Recolhi o papel da mão dele e gritei:
_Cala a boca moleque, quando chegar nos prédinhos, todo mundo sai correndo.

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