Estrelas do Grêmio Educandário Dom Duarte | Escrito por Nilton Victorino Filho

As quatro estrelas do Grêmio Educandário.
É engraçada, essa vida mesmo, dia desses me ligou em casa o Udiney. Lá se iam mais de 30 anos de saudades de um tempo feliz, deu notícias de um pessoal e disse que havia lido uns episódios das minhas escritas, contou que fora um menino que admirava os caras mais velhos que jogavam no Grêmio, ficava sonhando com o dia que jogaria naquele campo, com aquela camisa, deu pra visualizar a cena:Toda tarde de domingo, o guri franzino do lar 11, sentado na casinha da lateral do campão, assistia os jogos e sonhava.Num belo dia, o time adversário não aparece, o Grêmio já estava trocado e se aquecia em campo, o menino vê a chance de ajudar o time, desce pro campo e diz que pode montar um time às pressas, mas pede desculpas por não ter uma chuteira pra calçar.

O plantel do Grêmio não vê problemas e aceita o desafio, o menino corre pra chamar os amigos, muito rápido, consegue juntar 11 em campo, os 11 meninos descalços vão jogar contra a lenda do Butantã.Não se sabe se, foi por conta da humildade dos desafiadores ou se o Grêmio não levou à sério o jogo, mas, aqueles guris ganharam do Grêmio pelo placar de 4 x 1, isso garantiu o Udiney no elenco do Grêmio e mais alguns meninos.

Isso me fez acreditar que a vida nada mais é, que um tapete, todos os pontos traçados em combinação, numa maçante e repetida sequência de pontos e ligações, no fim o resultado uniforme e certo, tal e qual a vida.

Quando eu era um guri, ia pro campão pra ver os caras mais velhos jogar no Grêmio, sonhava com o tempo que eu vestiria aquela gloriosa camisa, feito o Udiney, a diferença é que, o Udiney era o cara mais velho que eu assistia.

Só não me sentava na casinha como ele, assistia da escada que levava ao campo de cima.

Era uma época anterior aos bailes e muitas vezes, deixávamos de assistir os nossos clubes no Morumbi ou no Pacaembu, só pra ver os gênios do Grêmio jogar.

Os meus amigos chamavam de as 4 estrelas, por consideração à eles, batizei o título assim, mas eu chamava de “Os 3 mosqueteiros e Darthagnan”, muitos jogadores compuseram a temida esquadra, mas a base, a espinha dorsal eram esses 4:

O Levi era o centro avante, leve e com recursos, tinha estilo e sabia se posicionar, o que ele não tinha era regularidade. Era o “Ai Jesus das meninas”, a aparência física o ajudava muito, dizem que as meninas faziam fila e ele não perdoava, mas, no campo tirava o pé e, nem por decreto, dividia uma bola, pode se dizer que, ele só ia na bola boa.

Por ser um jogador de meio, que foi obrigado a jogar no ataque, alternava entre um jogo perfeito, onde ele saia aplaudido e um jogo pífio, com lances perdidos, aí ele saia vaiado.

O Galito era um volante diferente, chutava com os dois pés, armava jogada, defendia como zagueiro e fazia gols mais bonitos que os atacantes, era o pulmão do time.

Fora do campo, era um exemplo pra todos, passou na prova da faculdade com 13 anos.

Esse era outro que cabia no meio de campo de qualquer equipe e não faria feio.

Mas, o comandante desse time era mesmo o Udiney, dotado de habilidade e coração, muitas vezes, quando o time perdia, o capitão pegava a bola e, no meio de campo conversava com todos, corrigia os erros, entrava em todas e virava o jogo.

Era gráfico, como o Ditinho e o Pivete e integrava o time de cima também e ainda jogava na quadra, com o seu Reginaldo e o Alones.

Em campo, sua figura esguia e o cabelo alto lembrava o Falcão do Internacional de Porto Alegre, muitas vezes, nos espantava a sua visão de jogo, no ataque do adversário, ele ficava na base da barreira conversando com o atacante, parece que ele sabia o que ia acontecer, quando roubava a bola, saia com ela colada aos pés e conversando com o resto do time.

A quarta estrela e, eu chamava de Darthagnan, era o Valdevino, que também era da gráfica.

O primeiro interno a romper a barreira dos 10 segundos nos 100 metros rasos, dizem que tinham um motor nas pernas, a velocidade era irmã da habilidade, quando o neguinho saía com a bola nos pés só tinha um endereço…o gol.

Muitas vezes, o time acabara de tomar um gol, o adversário ainda comemorando, a bola era tocada pro Valdevino, sozinho, ele fintava o time todo e empatava o jogo.

É, a vida é uma sequência de repetições, um dia você é o guri que sonha, no outro dia você é o cara que faz o guri sonhar.

– Brotherhood of Sincerity

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