A Oportunidade Faz o Niltão. | Escrito por Nilton Victorino Filho

Eu acho que posso ficar à vontade para contar esse fato que aconteceu em 1984, posto que, eu tenho a impressão de que esse crime já caducou, se ainda não, alego insanidade ou que eu era menor de idade.
Por essa época eu já ia com dezessete anos, era um destacado membro dos “Neguinhos do Educa” e ainda que a turma ainda ser de remanescentes da infância, tocávamos o terror, no bom sentido, pelas matinês dançantes da Paulicéia.


Onde houvesse um som black, a gangue estava junto, por esse tempo a minha fama de conquistador chegou ao seu apogeu, em cada semana uma guria caia em minha lábia e saía para um rolê, existia mesmo, entre os membros do grupo, uma disputa bastante acirrada.


Bom, em tempos de ensaio de carnaval, a turma frequentava outras praias, éramos todos fãs da Vai-Vai, escola do Bexiga, de onde meu irmão Nilson era membro da bateria.


Esse evento que acontecia aos sábados à noite e varava a madrugada, era chamado de “Rua do Carnaval”. Nessa noite chegamos um pouco tarde e estava relativamente cheio o local, o grosso da turma foi comprar as brêjas, eu ia também mas, reconheci um rosto na multidão que ficava abaixo do palco, nem acreditei que fosse ela mesmo.
Me acotovelei pra chegar bem perto, empurrei um, pisei no pé de outro e, com dificuldades, fiquei ao lado da moça.


Era mesmo a moça que pensei que fosse, muito famosa, famosa ao ponto de o meu armário no colégio ser forrado com um poster gigante dela…nua.


Estava anônima entre o público, trajava um jeans desbotado e uma blusa simples de tricô, daquelas feitas por nossa avó, sofrendo para não ser reconhecida, eu é que não a denunciaria.
A essa altura eu já estava ao seu lado:
_Moça, será que teria jeito de eu te dar um beijo???


Ela, sem jeito e constrangida, consentiu com a cabeça.
Três beijinhos era pra conhecer uma guria, dizia a praxe, cheguei meu rosto ao dela e senti um perfume suave, um beijo num lado do rosto, um segundo no lado oposto, o terceiro eu errei e acertei a boca e demorei-me ali.


Mesmo constrangida, ela ficou ainda ao meu lado, lá do fundão, o Zóinho gritou para a turma.
_PQP, Niltão já começou bem.
_Ah, esse menino me enche de orgulho! respondeu o Viana ainda longe.
De repente o mestre de cerimônia anunciou no microfone:
_Senhores e senhores, e com muito orgulho que chamamos ao palco, para falar sobre o filme Quilombo, que está em cartaz, a grande dama do cinema nacional, nossa celebridade…Zezé Motta.


A moça me deu um último olhar e se encaminhou para o palco.
Enquanto todo mundo aplaudia a diva, o Everaldo gritava a todo pulmão:
_Ei, ei, ei Niltão é nosso rei.

– Brotherhood of Sincerity

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