Meu Melhor Amigo (Final) | Escrito por Nilton Victorino Filho

Já que essa é uma quarta parte de uma história, não vou me ater em prefácios ou considerações desnecessárias, posto que, em um capitulo eu poderia ter escrito tudo.
Não, não poderia e, você vai entender o motivo da minha demora.

Feito isso, convido o leitor a uma história das que eu não gosto de escrever, uma história sem final feliz.
Não era muito comum de acontecer, mas em algumas tardes fazíamos atividades numa salinha que ficava no fundo da quadra e era o subsolo do teatro, as atividades eram mais recreativas que, propriamente lúdicas.
Como isso se dava em horário de recreio, ao invés de subirmos pro pátio, brincávamos na quadra.

Brincar na quadra sem bola exigia muita criatividade, alguém sugeriu esconde-esconde e determinou que, se alguém subisse pra rampa não valeria.
Amigos que éramos, assim que o Helio virou-se pra bater cara na parede da sala de jogos, corremos juntos, da portaria para o refeitório, a rampa faz um perfeito angulo de 90 graus, nessa inclinação ficou um vão, nesse vão foi construída uma pequena sala, onde eram guardadas as ferramentas de jardinagem, revestida de madeira e a porta ficava de frente com o portão vidrado que dava acesso à lavanderia. Esse depósito estava na altura da quadra e um pequeno muro separava o jardim.

Corremos juntos e a intenção era nos esconder no jardim, era nosso costume apoiar as mãos no muro (que tinha a altura de nossas cinturas) e jogar os corpos pra frente, como se pulássemos no dorso de um cavalo. O fizemos juntos e ao mesmo tempo, o que não podíamos imaginar é que, no lado de dentro do jardim, alguém havia jogado uns cacos de garrafas quebradas.
Ora, a primeira coisa que guri faz, pra iniciar uma corrida é se livrar do calçado, quando alcançamos o chão do outro lado, aterrissamos em cima dos cacos, a dor não foi imediata, o choro era causado pela angustia de tanto sangue, fechamos os olhos e gritamos por socorro.

A madre Enfermeira nos atendeu, lavou-nos os pés e o seu Paulo já nos esperava pra levar ao hospital.
Meus cortes foram profundos e sempre tive a cicatrização rápida, enquanto eu era atendido num leito simples, o Fernandinho foi levado pra outra sala, um time de médicos e enfermeiras o acompanhava, em coisa de duas horas, o médico disse que eu estava liberado, os dois pés enfaixados, o seu Paulo trouxe uma cadeira de rodas, perguntei do amigo e ele disse que ainda havia umas radiografias a ser tirada, a madre Enfermeira ficaria com ele, notei que o seu Paulo disfarçava uma preocupação.
Em uma semana, já haviam me retirado as faixas e eu tentava andar, apenas uma pequena dor e nada do Fernandinho, a madre Enfermeira me evitava e as outras freiras não conseguiam evitar um ar de crescente pesar, eu perguntava sobre e todas elas desconversavam.

Mais uns dias se passaram, eu já jogava bola e a turma do São Pedro foi convocada pra uma reunião, a Madre Brasil explicou que o Fernandinho ia ficar um bom tempo na enfermaria, tudo o que era dele havia sido levado pra lá, ao fim da reunião a madre disse pra eu ficar, queria falar comigo a sós. Me disse que a única pessoa que poderia visita-lo era eu, não queria ver mais ninguém.
Levou-me à enfermaria, falou que eu deveria ser forte, imaginei o pior e quando me viu sorriu, não me pareceu tão mal assim.

Seus pés ainda não haviam cicatrizado e era uma carne purulenta, feio de se ver.
Desde muito pequeno, tenho a capacidade de disfarçar algumas emoções, dificilmente me assustam as coisas, na verdade assustam só que eu não demonstro que me assustei, criei isso sozinho, pra me defender, se não me vissem sentimento como o medo e o horror, jamais poderiam me atingir.
Então, se aquela ferida me dava náusea, o amigo não perceberia e jamais sentiria o constrangimento de causar o horror em olhares alheios.


Fiquei na enfermaria com o amigo e só saí na hora da janta. No dia seguinte a madre Márcia perguntou se eu não me importaria de dormir no leito vizinho do amigo_sem problemas e fiquei. Todas as revistinhas da sala de jogos foram levadas pra nós, eu tomava café, almoçava e jantava na enfermaria, só saía em horário de aula, assim que terminava a aula, a tia Sonia subia comigo e passava as mesmas lições que passara em sala, quando não dava para fazê-lo me encarregava de passar a matéria pro amigo.


Conversávamos muito e brincávamos e riamos muito, porém, eu sentia no olhar dos adultos, que a coisa não ia bem.
Uma tarde quando eu vinha da aula, não estava na cama o amigo, disseram que ia sofrer uma cirurgia e voltaria em uns três dias, os olhos da madre Brasil estavam vermelhos e ela evitava me olhar de frente, que remédio… voltei pro pátio.


Em três dias voltou me avisaram e quando subia as escadas, nos últimos degraus parei, sem que elas me vissem, fiquei a olhar a cena, a madre Brasil chorava copiosamente e a Enfermeira a acalmava, estavam ali, fora do hall da enfermaria, para que o paciente não percebesse a cena, dei uns passos pra trás e voltei pro começo do último lance da escada e iniciei a subida batendo os pés com força, perceberam a minha presença e ficaram em posição de sentido, dei bom dia pras irmãs.
As duas respiraram fundo e corresponderam à saudação, já sem as lagrimas, a madre Brasil, como já era de costume, ajoelhou-se e fico da minha altura, me deu um beijo e disse:
_Seja forte, muito forte.
Não deu pra entender, mas, fiz que houvesse entendido, levantou-se e pegou na minha mão, me levou ao quarto do Fernandinho.
O amigo estava deitado, seus olhos tristes buscavam um ponto inexistente no raio de sol, que vinha da janela de vidro, a madre Enfermeira ficou na porta, a outra foi comigo até o pé da cama.

Só agora, olhando de perto, vi o que fazia a infelicidade do amigo, o joelho da perna esquerda estava enfaixado e terminava ali, haviam amputado o resto da perna.
Não me olhou o amigo, um profundo silêncio reinou no quarto, uma borboleta bateu no vidro, ainda que ela pudesse ver o ambiente do outro lado, não podia transpor a barreira, inconformada, jogou-se contra o vidro na vã tentativa de entrar.
Nove anos eu tinha, nessa pouca idade já presenciara coisas que fariam essa cena ser banal, abri a janela, com a borboleta uma brisa refrescante invadiu o quarto, mostrei o meu melhor sorriso:
_Caramba, imagina se te derem uma perna biônica, daquela do “Homem de seis milhões de dólares”, não seria legal?
E saiu assim, na maior de todas as naturalidades do mundo, o amigo não olhava mais pro tal ponto, fechou os olhos e começou imaginar o que eu havia proposto, segundo depois soltou uma sonora gargalhada e me abraçou, ria também a madre Brasil, madre Enfermeira entrou e, entre as risadas fazia SSSSSHHHHHHH.

A mãe dele vinha nos fins de semanas, como era costume de anos, trazia os nossos doces, na cama brincávamos de forte apache e a Rúbia emprestou-nos uma vitrola com vários discos, o tio do Alberto veio num dia de visitas e mandou instalar uma televisão em cores, doou pra enfermaria, de vez em quando ele pedia pra passear pelo colégio, na cadeira de rodas e eu empurrando, por todos os caminhos que costumávamos nos aventurar.

Um dia, eu estava em aula, chegou à madre Da Glória e disse que o amigo havia partido, só então, me disseram que era câncer.
Houve velório e cerimônia de enterro, me recusei a comparecer nos dois.
Entre a entrada no hospital e o final de tudo, foram cinco meses e, a falta é eterna.

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