Pobre Menino Rico | Escrito por Nilton Victorino Filho

Quando fui estudar no Vidigal, fazia parte de uma estratégia para que os internos estudassem fora, isso deu certo e mandaram mais três pra lá, eram o Gil do 20, o Coquinho do 24 e João Augusto do 12. Como eu estava doido pra montar um time de futsal só com internos, faltou um.
Um guri chegou e nos disse:
_Se me deixarem completar o time, pago Tubaína.


Ah, na hora… esse guri passou a integrar a equipe, a cada jogo, além da Tubaína, tinha pão com presunto e queijo.
O Amadeu era filho de um promotor de justiça viúvo, por ser oriundo das classes mais desfavorecidas, obrigava o filho a frequentar a escola pública. Todos os dias, uma senhora negra vinha o buscar na escola e ele a tratava de mãe.
Éramos o oposto, ele era filho único e eu dividia a casa com mais 44 irmãos, ele tinha muito dinheiro pra gastar e eu vivia com os vale-transportes do seu Tinoco.
Contrariando a lógica, ficamos muito amigos, até por que, ele costumava colar de mim as matérias.


Um dia, na saída da escola, ele propôs uma brincadeira, cada um ia almoçar na casa do outro, passar uma tarde no mundo do outro.
Acertamos os detalhes e apertamos as mãos.
A primeira foi na casa dele, a mulher que ele chamava de mãe, era a empregada da casa, o quarto dela era maior que a sala do pavilhão 14, durante o almoço o pai dele me cumprimentou, fez várias perguntas, pra saber o que eu e o filho dele tínhamos em comum, ao final lançou o veredito:
_O Amadeu tem melhorado na escola, você está ensinando ele, né?


Rimos a valer da cara de contrariado do Amadeu.
Depois fomos pra uma sala que tinha um lustre direcionado pra uma enorme mesa de bilhar, toda em madeira de mogno e um imponente tapete vermelho.
_Cara, você tem uma mesa de bilhar em casa?


Imagine a cara de inveja do menino pobre pra cima do menino rico, passamos a tarde toda naquela mesa.
Para pegar o bandejão do Educa, ele chegou uns 10 minutos antes do meio dia, eu o estava aguardando na portaria e subimos na estrada de paralelepípedos.
Viu do lado esquerdo o majestoso campão, com seu tamanho oficial, a casinha e o vestiário.


_Cara, você joga nesse campo?
Imagine a cara de inveja do menino rico pro menino pobre.
Sem nos preocupar com nada, ficamos na fila da cozinha central.
A chefe era a dona Mercedes, assim que percebeu que o menino era estranho, ficou com olhar de poucos amigos e foi ter conosco.
Já disse que eu tinha cara de anjo e sabia usá-la quando se fazia conveniente.
Com calma, tirei a dona Mercedes de lado e disse:
_Esse é um menino sem família, disse pra ele que podia almoçar aqui hoje.
Isso dobraria qualquer pessoa ruim e a dona Mercedes era um doce, além de mãe e avó.
Assim que as minhas palavras entraram em seus ouvidos, ela pegou na mão do menino e o tirou da fila, levou-o pra uma mesa e mandou que ele esperasse lá, num prato de vidro colocou uma comida melhor do que aquela que serviam nas bandejas e o serviu.
Quando saíamos, veio a dona Mercedes e lhe deu um embrulho.
_Isso é um lanchinho, pode vir aqui quando quiser.

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