O Irmão José | Escrito Por Nilton Victorino Filho

Queria dizer umas boas do irmão José, mas, o que dizer de uma pessoa cuja maior qualidade era o silêncio?

Partindo para as aventuras de fim de semana, fazíamos uma pausa para comprar o filão com mortadela, que o irmão cortava com faca e embrulhava num papel de seda, com pouco dinheiro, o jeito era comprar as balas de astronauta mesmo e não importava a pressa do freguês, o atendente demorava sempre.

Trabalhei lá por uns meses, aprendi a verdadeira arte da paciência, às vezes, eu tinha vontade de sair correndo, queria falar e o irmão José me mandava respirar, os assuntos ficavam nas reticências e ele nem se mostrava interessado em continuá-los então, os assuntos morriam.

No fim do expediente, ele trancava a porta gigante e descíamos a escadinha para a rua, eu seguia para a direita e ele ia rumo à administração, o sentido inverso.

Por vezes, eu fazia as duas vozes da despedida:

_Até amanhã.

E eu mesmo respondia:

_Até amanhã.

A vida passava e o almoxarifado parecia um portal do passado, o prédio antigo, as porta de madeira maciça e a presença do velho e paciente irmão.

Cheguei muito cedo, numa manhã de verão e como de costume, fiquei sentado na amurada da entrada, aproveitando os raios de sol e ouvindo o meu radinho Evadin, claro… rádio Jovem Pan.

“Hora certa”…

Seis e quarenta em São Paulo…

REPITA

“Seis e quarenta em São Paulo”.

Absorto na minha liberdade, não tinha pressa de começar o serviço, mas, sempre saía cedo do pavilhão pra evitar a escala de limpeza.

De súbito fiquei de frente para a porta e estranhei a ausência do enorme cadeado que a ornamentava.

Talvez o irmão José já houvesse chegado, fui até a entrada e empurrei a gigantesca porta, ela abriu em frandes e mostrou uma enorme sala vazia, sacas e sacas de mantimentos haviam sido levadas, para meu desespero, limparam também a parte dos doces.

No balcão, jazia a faca que fatiava a mortadela.

Desci a ladeira íngreme e escorregadia que dá no pátio do grupo escolar e cheguei à residência dos irmãos e desacelerei para acompanhar os passos do meu chefe.

E subiram todos, até o seu Bernardo e o seu Mattos motorista, que levou o cachorro Viele consigo.

Quando estávamos na curva acima da administração, o cão latiu e correu na direção da caixa de força, o povo não ligou para isso, eu, o irmão e o seu Mattos fomos ver do que se tratava.

Ali, no espaço alto do barranco sobrara dois sacos de feijão, o de cima estava rasgado e o produto se espalhara pelo chão.

_Rota de fuga.

Disse o irmão José, com um ar assim de Sherlock Holmes.

O seu Mattos sorriu enquanto acariciava o cão detetive:

_Sabe tudo, esse menino, sabe tudo.

Meia hora depois chegou o Fusca da polícia civil, uma hora depois trouxeram dois adultos algemados pra confirmar o roubo e esclarecer os fatos, ambos haviam sido internos do Educa.

Repostas todas as mercadoria, a vida voltou ao seu curso e, o almoxarifado voltou para o começo do século.

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