O João do Bode | Escrito por Nilton Victorino Filho

Parte de se viver órfão, era a solidão de não ter uma família, alguns vão usar isso como desculpa para não conviverem em sociedade e se estagnarem nesse mundo e, como consequência, nunca estarão completos, sempre a desculpa de não serem amados na infância.

O Educandário Dom Duarte não atendia só aos órfãos, grande parte dos internos tinham famílias e as viam em fins de semanas, quando não, tinham sempre os domingos de visitas, as famílias que não tinham condições de buscar o interno, compareciam nesse dia e armavam seus banquetes no gramado, do lado oposto do campão.

Bom, o órfão tinha uma única visita, o João do Bode. Esse notório personagem, era um crioulo alto de sorriso fácil e alma de anjo, não sei se foi promessa ou, simplesmente o sentimento de voluntariedade que o impelia a ser um afro-Papai Noel dos meninos.
Alguns contam que ele havia sido interno da Casa da Infância do Menino Jesus e, por ser órfão, não recebia visitas, fora lá, por compensação, que ele havia começado, em domingos de visita e natal, a distribuir doces aos poucos que ficavam no colégio.


Então, ele compensou a tristeza da infância, passou a ser a visita de quem jamais teria.
Alguém sempre vai supor que, para tal empreitada, um sujeito tem que ter muito dinheiro, o João não parecia, pelas roupas que vestia, ser um sujeito de muitas posses não, ele comprava uma parte e arrecadava com amigos e comerciantes, juntava tudo num grande saco e distribuía.


Quando me mudei para o Educa, percebi que o João do Bode chegava regularmente às 14:00 horas, de qualquer canto que se estivesse, o grito ia passando, de boca em boca:
_O João do Bode chegou.
E, como se fossem tambores, quem estivesse em lugares distantes, saberia da notícia e corriam ao encontro, os meninos que estavam com suas famílias também corriam, de longe se podia ver a cena, um homem grande correndo, seguido por dezenas de guris.

Claro que os doces eram bons, isso conta no final da história, porém, para alguns internos, essa era a única visita.
Viva sempre, João do Bode, um homem simples, de atitude gigante.

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