O Tempo | Escrito por Nilton Victorino Filho

Via de regra, eu sou um sujeito muito mal humorado, não queria me expor dessa forma, porém, se eu não dissesse isso, faltaria com a verdade… é da minha natureza, essas coisas que já vem do ovo, não tem cura mesmo.
Com o tempo, a gente vai abrandando, e ou, as pessoas aprendem a te aceitar como você é. E, aqui vão tres passagens, separadas num espaço de 10 anos, onde o mau humor foi acrescido de dor de dente.

Puts calcule uma pessoa que já sofre da doença da chatice crônica e junte a isso uma dor insuportável… pronto, você terá que se proteger num abrigo anti-aéreo.
Em 1978, meus amigos eram sempre os mesmos, aqueles que dividiam as aventuras do futebol e das armações, entretanto, no grupo escolar, eu era um pouco menos atirado, não participava das bagunças e não cabulava aulas… é, pra sua decepção, caro leitor, ainda que no tempo tivesse outro nome, eu era nerd. Eu, o João Augusto do 12 e o Augusto do 17, costumávamos chegar umas 2 horas antes do horário e ficávamos no mesmo lugar, em frente da escola havia umas arvores que desenhavam uma metade de um circulo, uma construção de alvenaria foi feita em redor dessas arvores, a intenção deve ter sido de se fazer um jardim, mas acabou virando um enorme banco, ali os meninos aguardavam e podiam ver se algum professor faltaria pras aulas.

Ali, naquele espaço arejado e protegido pela sombra, nesse curto espaço de tempo, debatíamos as coisas da época, tipo:
O espetacular poder do Uri Geller, que entortava talheres com a força da mente, a existência do Pé Grande ou os mistérios do Triangulo das Bermudas, algumas vezes, só ficávamos olhando o campão, em silêncio.
Noutras, quase chegando às vias de fato, discutíamos coisas de suma importância pra existência humana, tipo:
_Numa luta, quem venceria… o Coisa ou o Hulk??

Todo santo dia, a Clarisse chegava uns minutos depois de nós e se sentava uns cinco metros à nossa direita, ela morava no Jardim Cambará, minutos depois chegava o Clóvis e se sentava a uns 5 metros a nossa esquerda, ele era filho de um funcionário do Cemitério Israelita que morava no serviço.
Ambos sofriam do mal da timidez e seus olhares ficavam a se procurar e, nós três no meio, todo santo dia a mesma coisa.
Um dia falei pro Clóvis chamar a moça pra conversa, ele disse que tomaria coragem e nada, às vezes, no calor de uma discutição, parávamos e ficávamos constrangidos com os olhares deles, parecia que os dois estavam na conversa.

Um dia, acordei com o dente do siso me rasgando a gengiva, a dor era qualquer coisa entre o inferno e coisa pior, fui à administração e dentista só no dia seguinte, peguei um sol de rachar o dia todo e a dor só aumentava, não pude mastigar o almoço e fui pra escola, quando cheguei, já estavam lá os amigos, que perceberam que eu não estava bem, o mundo rodava e a dor aumentava. Como de costume, chegou o casal e ficaram a nos fitar, isso fez a dor ir ao ponto da explosão.
Levantei-me e fui ter com a Clarisse:
_Está vendo aquele guri ali?Ele quer te namorar e não tem coragem, você quer namorar ele e não tem coragem. Peguei-a pelo braço e a levei até ele.
_Esse cara nunca vai se declarar… pelo amor de Deus, aceita logo e mudem de lugar, caramba.

As últimas palavras saíram gritadas, sem opção, o Clóvis a tomou no braço e os dois saíram pro lado do lago.
No dia seguinte, nenhum dos dois apareceu na escola, no dia seguinte chegaram de mãos dadas, mas foram se acomodar pros lados da casinha do campão, que era mais apropriado. Quando a escola fechou pra reforma e tivemos que nos mudar pro Attiê, ficou muito longe pros dois e eles foram estudar no Guiomar, nunca mais os vimos.
Em 1988, eu já era pai de uma filha e morava na Osvaldão, o mesmo dente me machucava, a massinha caíra e uma carie me corroia a gengiva.

Na época do prefeito Mario Covas, havia dentista 24 horas no posto de saúde do São Jorge. Eu estava sentado na sala de espera, quando um sujeito muito grande e calvo apareceu gritando pro meu lado:
_Pinhé, como vai à vida?
Sem olhar pras fuças do sujeito, já fui rebatendo:
_Pinhé é o escambau, meu nome é Nilton.
O sujeito parou na minha frente com os braços abertos:
_Sou eu, o Clóvis.
Não demonstrei entusiasmo, ele percebeu a minha cara de dor e disse:
_Daqui a pouco eu volto e saiu.
Esperei um pouco mais e fui atendido, um alemão com os olhos vermelhos enfiou uma seringa na minha gengiva, depois que a anestesia fez efeito, meteu o boticão e arrancou o dente, perguntou se eu o queria, diante da negativa, encestou no lixo sem chuá.

Quando sai da sala, meio cambaleando, estavam lá o Clóvis e a Clarisse, duas crianças pequenas e um bebê ao colo.
Fiquei feliz, a Clarisse me deu o bebê, perguntei o nome da linda criaturazinha.
_Nilton. Responderam juntos.
Dez anos mais tarde, o guri apareceu pra jogar no meu “Dínamo”…
Num dia de fúria, eu disse pro menino:

_Ta falando o quê menino, se não fosse eu, você nem teria nascido.

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