Zabé, o Anjo Negro | Escrito por Nilton Victorino Filho

Como todas as crianças que cresceram no Educandário Dom Duarte, vivi sob as regras duras do cristianismo e o irmão Augusto falava da tal alma branca…só que eu cresci e das pessoas que conheci, as que tinham um ar que se aproximava de uma santidade foram poucas, a maioria delas, não tinham a pele alva.

O Carlos Alberto não gosta de ser chamado de Zabé, havia sido interno da Casa de Infância, interno do Educandário Dom Duarte e agora era funcionário da marcenaria. Acostumei ver o Carlos Alberto no seu caminho diário de pegar água na bica ou a esperar em frente do aprendizado, sereno e sorridente, sempre a cumprimentar a todos, sem qualquer discriminação.

Sempre vi o neguinho como um lago de águas tranquilas, como quem vive num plano superior, onde os seres não se matam entre si, só sorriem, como se o simples fato de sorriem, fosse o bastante pra iluminar e contaminar os outros viventes. Nunca soube que o Zabé tenha se alterado ou dito uma palavra que ofendesse alguém, somente o sorriso plácido de quem não tem nada e, não tendo nada, tem tudo.

Na parte direita do grupo escolar, restava uma parte de terra, que era usada como área de recreação dos guris da escola, ainda não era cercada e se avizinhava do Aprendizado, esse prédio que agora é do SENAI, no centro desse terreno, uma extensão pequena de terra batida.
Cavamos um buraco e marcamos um círculo em volta, uns 12 meninos e suas bolinhas à ganha, alguns carregavam as bolinhas, alguns eram donos das bolinhas, os outros eram meros torcedores ou arranjadores de confusão.

O Spock era o campeão do 14, o meu pavilhão, o Miguel representava o 13, eu era o assistente do Spock e o Avelino vinha com o Miguel, porque bolinha de gude era um patrimônio e, não se sai por ai, portanto riqueza, sem proteção. Sabe-se que o Spock era debochado, quando fazia a limpa numa vítima, costumava fazer o ritual da vitória que consistia em cuspir nas mãos, jogar as bolinhas ao alto e depois vinha um gesto obsceno. O Miguel se sentiu humilhado, perdera toda a sua riqueza e aquele esquisito ainda ria dele, partiu pro pau, a missão do carregador era, em caso de briga, entrar pro lado do chefe e eu entrei também na briga, o Avelino fez o mesmo, os outros meninos ficaram a atiçar.

Veio lá do Aprendizado, o Zabé, entrou no meio da briga principal, segurou os dois e sem dizer palavras e, deu um sorriso.
Até pode ser, que tenha falado alguma coisa, mas todos aqueles meninos que na época tinham uns 10 anos, de vergonha, saíram, cada um para o seu lado. E cresci, sempre a ver o amigo em seu caminhar sereno e a cumprimentá-lo em qualquer lugar:
_Arrê Zabé. Como se o sorriso desse anjo completasse o dia.…Zabé era um apelido que ele não gostava, então ele me corrigia:
_Zabé não, Carlos Alberto. Anos mais tarde, vieram os anos de chumbo, o mundo mostrou-nos sua verdadeira face e nos revoltamos e, como se a vida se mostrasse madrasta, gritou o revoltado Viana:
_. Nesse mundo não existe uma pessoa que não tenha má índole e desafio a quem me diga o contrário.

Estávamos todos em frente do pavilhão 22 e tínhamos todos 14 anos.
Fez-se um silencio a turma não sabia o que dizer, ele se sentia bem em ganhar uma contenda e, já abria o riso irônico de vencedor. Muito tranquilo, esperei que ele saboreasse a vitória, ao cabo de uns segundos fuzilei:
_E o que você me diz do Zabé?
A turma toda visualizou o Zabé em suas mentes e se sentiu aliviada, como se o mundo estivesse salvo.
Mas, o Viana não se deixava vencer assim fácil, depois de pensar bem e coçar a cabeleira, disse:
_Desculpa, eu falava de gente de carne e osso, o neguinho Zabé não existe.

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