Um Tempo Para o Machado de Assis | Escrito por Nilton Victorino Filho

Quando guri eu tinha um vício, a leitura e, eu conheci a leitura com três anos.

Então, enquanto os guris jogavam bola, eu devorava tudo, os gibis, as grandes obras da literatura brasileira, Aghata Christie, Sidney Sheldon, Montello, Sabrina, Adelaide Carraro, Drummond, Veríssimo, bula de remédio, jornal de ontem…

Deixei o Machado de Assis para quando eu estivesse mais maduro.

Eu tinha medo da obra do Machado, todo mundo dizia que essa era a mãe de todas as obras, não só os professores o diziam, os próprios autores o faziam.

Ganhei “Dom Casmurro” e guardei no armário do segundo quarto do pavilhão 14, pois era interno em um orfanato, o Educandário Dom Duarte.

Com a idade de 11 anos achei que estava na hora mas, deu-se o seguinte fato:

Ao passar com o livro na mão, na terra batida do pavilhão, encontrei o Valter, não vou dizer que ele era o mais esquisito dos meus irmãos de pavilhão mas, ele tinha a orelha direita pontuda e, por conta disso era chamado de Spock…parei para observá-lo.

Ele estava sozinho e ria, esticou a larga fieira que tinha na ponta uma tampa de garrafa amassada, enrolou o pião de tamanho grande muito rápido, deu uns passos atrás e bateu como quem chicoteia o ar, o pião subiu uns três metros e caiu rodando no chão, enquanto o pião rodava no mesmo lugar ele falava com o brinquedo de madeira, como quem fala com um amigo.

_Vem com papai.

Ainda girando a toda velocidade, ele ajoelhou e esticou a palma da mão, o pião subiu e se acomodou ali.

Veio então, em mim uma dúvida.

O Valter era maluco ou o maluco seria eu??

É certo que aquele esquisto tinha o habito de conversar com objetos inanimados mas, eu estava perdendo a infância, eu parecia um velho.

_Ô moleque, será que você podia me ensinar a fazer isso assim???

_Claro, vem para a terra.

_Espera que vou guardar o livro.

Guardei o Machado, aprendi a rodar pião, empinar pipas e me fixei no campo do 14 emfim, fui criança.

Essa fase durou três anos, deixei de ser nerd e virei um integrante do Sexteto infernal, nesse meio tempo, li menos mas, lia tudo, menos o Machado de Assis.

Entendi que para ler a obra do maior dos brasileiros eu devia ter sido criança primeiro.

Com 14 anos eu já trabalhava e lia Machado em pé, no ônibus lotado, em “Memória póstumas de Brás Cubas” tem um diálogo entre o personagem principal e um personagem que lhe pediu dinheiro emprestado, eu não aguentei e cai na gargalhada, não deu para segurar, o senhor que vinha sentado achou estranho e olhou a capa do livro na minha mão.

_Que moleque esquisito, ele consegue rir de Machado de Assis.

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