O Contador De Histórias | Escrito por Nilton Victorino Filho

Primeiro devo dizer que, se trata de uma graduação, há que se ser um ouvinte paciente e, se começa de criança, ninguém que não tenha o baú da memória cheio, conseguirá contá-las. Na Casa da Infância, vi imagens de um conflito que acontecia em Portugal e me interessei, a programação foi abruptamente cortada do ar, estávamos em 1974 e, sob o regime ditatorial. Claro que corri entre os adultos, querendo as respostas, eles corriam de mim como da cruz corre o tinhoso. Por fim, tive que recorrer à ajuda do padre Zezinho, aquele mesmo que era cantor e, sempre almoçava por lá.

Ele me contou que se tratava da Revolução dos cravos, de quebra me deu uma verdadeira lição da história das civilizações e, me disse que todo mundo tem uma história a contar, basta que alguém esteja disposto a ouvir, mas não as coaja, tenha paciência de esperar o tempo delas. Segui esse conselho e, para encher o baú da minha memória, fui o mais paciente dos ouvintes, conversava com quase todos os funcionários do Educandário Dom Duarte e, de fato, todos tinham algo a contar. Bom, o irmão José foi uma das exceções dessa regra, mas o seu Tinoco contava de quando os paranaenses, vindos pela estrada velha de. Cotias, surpreenderam o destacamento de Pinheiros, isso contou muito para a derrota dos paulistas na revolução de 1930.

O Turquinho contava de torcedores fanáticos que depredaram metade do centro de São Paulo, em 1936, porquê a Itália repatriou os jogadores brasileiros, o padre Paulo contava sobre o tempo que ele era estudante no Ceará, o seu Felipe contava de suas aventuras de jovem, nas boates e casas de meretrício da Boca do lixo. Certa feita, um sujeito foi fuzilado no Rio Pequeno e ele havia sido interno do Educa, nos noticiários, diziam se tratar de um bandido da mais alta periculosidade, na casinha do campão, todos discutiam o fato, o Batista marceneiro, que era do tempo dele, disse irritado:
. Essa história não é bem assim. No mesmo instante em que disse isso, olhou para todos os lados e se calou arrependido. Durante duas semanas, fui implacável na perseguição do Batista, não houve um lugar que ele pudesse se esconder que eu não o achasse, vencido, ele abriu o verbo. Com riqueza de detalhes, contou a história do amigo, desde que chegaram juntos no mesmo pavilhão, até o fatídico dia do fuzilamento, na verdade, ele comandava um grupo armado que se chamava “Brigada Libertária do Povo” e lutava contra a ditadura vigente. Bom, o seu Bernardo não tinha uma dessas para contar, se tratava só de uma história de visagem e folclore da sua terra natal, ele era do tipo detalhista e tinha um jeito de narrar bem pausado, como se estivesse revivendo o momento. Eu estava em pé, na estrada de paralelepípedos e ele estava agachado, enquanto contava, batia com a ferramenta entre as frestas, para tirar o mato que, teimosamente, cresce ali. O padre Paulo, que era o campeão de todos os chatos, desceu da administração e veio até nós: . Tem cabimento, atrapalhar o serviço do funcionário???

Desaforado que eu era, peguei uma espátula e passei a ajudar o seu Bernardo, o padreco saiu bufando.
No fim daquela e, mais umas três histórias, o sol já se punha, nos despedimos e eu, fiquei mais rico.

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