O Pelézinho |Escrito por Nilton Victorino Filho

Essa história é diferente das outras, é feito a vida e a vida não é feita apenas de boas lembranças, fatos ruins são somente fatos, se contarmos só as alegrias, caímos no erro de omitir a verdade.
No dia 2 de outubro de 1992, ocorreu o massacre do Carandiru, 111 mortos, segundo os dados oficiais, entre as vítimas estava o Pelézinho do 12.
Não julgo ninguém, é prerrogativa de cada qual seguir o caminho que lhe convém, caminhos levam às consequências, assim é a vida.

Pelézinho se chamava Wilson Roberto e chegou ao Educa em 1977, mesmo ano que eu, vindo da FEBEM.
O apelido, não era só pela aparência com o personagem do Maurício de Souza, a habilidade no campo, lhe conferia o merecimento de ser chamado de rei, e dos meninos de todos os pavilhões, do meu tempo, ele era o mais famoso de todos, portar a camisa 10 do Grêmio era lhe fazer justiça.

No campeonato de 80, eu, o Viana e o Feliz nos reuníamos pra traçar as estratégias do próximo jogo, nossa função era destruir o meio campo adversário e o próximo jogo seria contra o 12. Sentados na caixa de alvenaria, ao lado da primavera, discutíamos sobre como parar o Pelézinho, éramos duros em campo, pra não deixar o adversário jogar era comum algumas jogadas mais violentas e discutíamos justamente isso… como parar o Pelézinho sem bater.

Diferente dos outros adversários, o guri era nosso amigo e vizinho, por outro lado, se permitíssemos que ele jogasse solto, perderíamos o confronto. Passamos um bom tempo nessa conversa, sem que achássemos uma solução, pra falar a verdade, o Feliz nunca falava nada, eu e o Viana falávamos por nós e por ele. Acabou que não chegamos a lugar nenhum e encerramos a reunião, à noite a gente falava sobre isso, seguimos na direção do pomar, roubar mexericas como fazíamos quase todas as tardes, descemos pela horta do Japonês, antes, porém, uma nadadinha no lago.

Quando chegamos ao lago, já estava lá o pessoal do 12, ao nos ver cumprimentaram, à beira do lago havia umas arvores os longos troncos das arvores serviam de trampolim, se o guri tivesse as manhas, poderia saltar do galho pro meio do lago, lá estava o Pelézinho.
_Ó, o tripé de meio campo do 14. Disse isso com tom de ironia.
Pulou na agua fazendo pose, mergulhou uns metros, subiu e com braçadas firmes, foi ter conosco. Ficamos ali conversando amenidades, sabendo que o jogo se aproximava, falamos de um tudo, menos de futebol, depois as duas turmas subiram pelo lado da mata, em busca das mexericas.
A mesma história de sempre… dar nó nas mangas e na gola das camisas, vencer a vegetação da mata fechada, esgueirar-se no arame farpado, subir nas arvores, encher as camisas, desviar dos tiros de sal, correr dos cachorros, voltar pra casa e dividir o produto com os amigos.

Voltamos pelo mesmo caminho, beirando a horta dava pra ver o campo do 14 e seguimos a estrada onde uma majestosa araucária fazia uma sombra absoluta, nesse ponto os meninos do 12 se despediram, o Pelézinho ficou.
Não desviou o assunto, com a camisa carregada de mexericas às costas disse:
_Amanhã vou destruir vocês e não levem a mal.
Diante de tal sinceridade, eu disse:
_Neguinho, a gente estava discutindo um jeito de não picar a bota em você…
A risada que ele deu foi estrondosa, beirava mesmo o desprezo:
_Se eu fosse vocês, batia mesmo, por que eu vou deixa-los no chão, isso é uma promessa.
Falou isso e ajeitou a camisa nas costas e, ainda rindo, foi-se.
Ficamos ali, sorrindo, conforme ele se afastava de nós, nos mostrava no balançar do corpo um gingado de malandro e ria de nós.
_Ó, que carinha cabuloso. Disse o Viana.
Depois que o Pelézinho sumiu, o Feliz disse:
_Amanhã vou bater nesse guri feito mala velha, pra tirar baratas.
No jogo, fomos impecáveis, sem o recurso da violência, literalmente paramos o craque adversário e quando se anula o craque não dá outra, chocolate.

Não falou o jogo todo, parecia mesmo resignado o Pelézinho, em qualquer lugar do campo que ele pudesse pegar a bola, lá estava o trio, se ele fintasse um, os outros lhe tomavam a bola, a cada roubada de bola, imitávamos o riso que ele dera na véspera.
Quando o jogo chegava a final e a nossa vitória já se consolidava, o Feliz achou de sair brincando da defesa, passou o pé em cima da bola e, sem perceber que o dito cujo estava em cima dele, iniciou uma corrida pela esquerda, o Pelézinho emparelhou-se no lado oposto e tomou-lhe a bola, vendo isso, eu e o Viana corremos pra socorrer o Feliz, um de cada lado.

Assim que teve a pose da bola, parou e ficou esperando o Feliz dar o bote, o Feliz foi com sede pro bote, muito rápido e sem espaço, o neguinho enfiou a bola no meio das pernas dele, eu vinha no embalo, travei a chapa e tomei o meu, passou por mim e ficou de cara com o goleiro Marcos, entrou na área e o Viana corria nas suas costas, era só bater no gol, levantou a bola e tirou o corpo, no espaço que ele saiu o Viana passou lotado, aparou a bola com o pé esquerdo e completou a touca, com o mesmo pé ajeitou a bola, soltou o corpo no ar e deu um voleio.
Eu, o Viana e o Feliz vimos àquela obra-prima deitados, ao invés de comemorar o gol, me deu a mão, se não fosse isso eu estaria lá no chão até hoje.
No final do jogo, o Feliz argumentou:
_Que adianta isso tudo? Nós ganhamos o jogo.
Muito senhor de si, o neguinho sentenciou:
_Não disse que ia ganhar o jogo, eu disse que ia deixar os três no chão.

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