A Cleide |Escrito por Nilton Victorino Filho

Júlio era o nome do homem que administrava duas hortas que se encontravam dentro das terras do Educandário Dom Duarte, nascido na terra do sol nascente, quase ninguém o chamava pelo nome, as hortas eram do Japonês e pronto.

Uma delas ficava ao lado do campo do 14, uma boa parte da estrada que levava ao cenáculo, caía num aclive longo e morria na parte baixa, quando encontrava o lago. Essa parte, agora, pertence ao CDHU-Educandário.

A segunda horta ficava nas encostas da fileira de pavilhões que se seguiam na estrada da pensão, uns três lagos, incluindo o do 24, a abasteciam, essa, se encontrava onde hoje compreende as terras da COHAB-Educandário.

A turma que estudava pela manhã, podia ver o esguichar da irrigação, eles formavam arco de água e mantinham a plantação sempre molhada.

No fim da horta, se encontrava a Escola Estadual de primeiro grau Luís Elias Attiê, eu e meus amigos estudávamos nela, desde a inauguração, um ano antes.

Estamos em março de 1979 da era cristã e, depois de dois anos seguidos, ter tido o desprazer de estudar em salas onde predominavam alunos do gênero masculino, sendo que, eram todos internos, minha sala tem meninas e são elas:

As duas filhas do seu Alfredo, que quase não falavam e eu, imbecilmente, esqueci-lhes os nomes, tem a linda Claudia, que é sobrinha da dona Havanir, tem a encantadora Ylka, a filha da professora Íris e do João Bellini, a Verônica, filha do seu Valdemar sapateiro, a Norma e a Nazaré, que moravam na Osvaldão, a Lígia, aquela bandida que me roubou o coração, tem também a Valdeci, aquela que contei uma aventura de beijo e, por fim, a Cleide.

Pelejei para coloca-la um predicado adequado e, adequado mesmo só me veio a palavra esquisita.

Já disse que, por esse tempo, menina nenhuma queria conta comigo, quando eu avançava nas negociações, virava amigo, então eu era o amigo das meninas e, quando eu não soava na quadra, estava rodeado de meninas, digo, de amigas.

A Cleide era uma guria de estatura baixa, olhos dum castanho próximos do mel, sardas no rosto, nariz e boca finos e suaves, não se podia ter noção da sua silhueta, pois ela usava roupas largas, ou peça por cima da peça e, quando ria, lembrava o freio de um automóvel.

Quando riu, pela primeira vez em sala, fez com que todos rissem também, ela olhou desafiadora para todos, da sala toda, apenas um guri não riu…eu.

Ao meu lado direito havia uma carteira vazia, ela se levantou e se mudou para lá, agora estava perfeito, a esquisita ao lado do esquisito.

Ela morava no BNH, por esse tempo, pessoas que moravam no BNH eram tidas como classe média, classe média em periferia é burguês, então ela negava esse fato, dizia que morava na Vila Operária.

Ao contrário da Valdeci, a Cleide não era nerd, entrava na conversa em hora imprópria, tinha mania de, quando conversava, ficar pegando na pessoa e, de quando em quando, dava a sua risada, chamando a atenção para o trio de esquisitos e, assim mesmo, quando ela faltava às aulas, sentíamos a falta dela.

Num belo dia, no pátio, enquanto ela ajeitava a gola da minha camisa e eu tirava a mão dela, me veio com essa.

_Meu querido, domingo agora é dia de visita no Educa, certo???

_. Isso, domingo de visita.

_E você recebe visitas???

_Claro que não, vivacidade, como é que alguém que não tem família vai receber visitas???

_. Então está combinado, eu vou te visitar no Educa.

É claro que a ideia era absurda, ridícula e sem sentido, respirei fundo e disse:

_. Tudo bem, mas vê se veste umas roupas de gente.

Saindo da escola, naquele dia, não fui com os amigos, no caminho da horta, sai pelo portão da frente e fui com a amiga ao BNH, ela contou para os pais, que também eram esquisitos, e eles nem questionaram, me recomendaram que não deixasse a filha correr qualquer tipo de risco.

_. Podem deixar, seu Justo e dona Lourdes, não se preocupem.

Nem me passou pela cabeça que ela pudesse correr algum tipo de risco, vesti a minha melhor roupa, já era domingo, as visitas entravam na portaria, não tive inveja de ninguém, a minha visita chegaria em breve.

Então ela chegou e, estava linda numa calça jeans azul e tênis azul, a camisa Hering rosa deixava transparecer o formato de seios que ainda não cabiam em sutiã e os cabelos soltos esvoaçavam ao vento, me deu um beijo na face e dependurou no meu braço.

_. Caramba, por uns segundos, pensei que fosse uma mulher.

_. Pronto, acabou de estragar uma cena digna de cinema, seu esquisito.

Ao abrir-nos o portão, o seu Felipe deu um sorriso cúmplice de aprovação e sorriu.

Subimos a estrada de paralelepípedos, na grama, as famílias estendiam as toalhas e saboreavam seus lanches, comidas feitas pelas mães, não pelo irmão Simão, à medida que subíamos, eu ia mostrando os prédios e dando os nomes deles, um a um, como se fosse um guia turístico.

Nunca havia passado pela minha cabeça namorar com a Cleide, mas talvez eu a pedisse ao fim da visita.

Passamos no 14 e ficamos um tempo com os amigos e eles contaram tudo sobre ser um interno, claro que a Cleide ficou fascinada, como não havia larista, entramos no pavilhão e mostramos tudo, saímos pela estrada do 12 e chegamos nas jabuticabeiras do 11, não precisava subir no pé para apanhar as frutas e, ela fez questão de subir.

Tudo ia maravilhosamente bem, mas o tinhoso quando está de folga, manda o secretário, nesse caso, os secretários.

No meio do caminho, entre a assistência e a casa do irmão Domingo, ficava a serralheria, de lá pularam quatro guris na estrada, disseram que ninguém podia passar por ali, ficaram a uns quinze metros de nós, com pedras nas mãos.

Tratava-se do Romão, o Ronaldo, o Valdeci e o Luizinho…dois do meu tamanho e dois menores, para que não houvesse perigo para a menina, eu tinha que negociar.

Fiz sinal para que ela ficasse ali, levantei as mãos e fui ter com os guris do 13 que, na época, não eram meus amigos.

Quando cheguei bem perto, passei a explicar que qualquer coisa que acontecesse à menina, poderia gerar grandes complicações, estava já chegando à um acordo, quando olhei para trás, a menina estava descalça e com as barras das calças arregaçadas.

Como eles tinham os olhares presos em mim, não perceberam que ela havia iniciado uma corrida, só deu tempo de eu sair de lado, ela pulou com os dois pés e atingiu o peito do Valdeci, no impacto, o Romão caiu junto, os dois maiores estavam no chão, os dois menores correram para o pavilhão, pegamos os tênis dela e nos apressamos para sair dali.

Os guris que haviam corrido, voltaram com o resto que faltava do pavilhão e, já corríamos em velocidade, para qualquer lado que corrêssemos seriamos alcançados, ao passar pela frente da casa do irmão Domingos gritei:

_. Ô Domingão.

Feito isso, paramos de correr e ela passou a calçar os tênis, o irmão Domingo saiu e quis saber quem o havia chamado, eu disse que não havia sido nós, talvez o grupo que vinha correndo.

O bando não tinha como saber, a casa fica no fim da curva, só viram que nós sumimos e, quando nos acharam, deram de cara com o diretor e já imaginaram que haviam sido caguetados, usando um termo educandáriano, fizeram meia volta, o irmão Domingo é quem corria, agora, atrás deles.

Descemos o bambuzal e voltamos para a grama, onde as famílias se reuniam, a mãe do Adalberto que, em domingos de visita, desde a Casa da Infância, fazia o papel de minha mãe, nos convidou para o banquete, delicia de bolinhos de bacalhau com amêndoas.

Por garantia, levei a moça para casa, os pais perguntaram-me se tudo correra bem.

_. Tudo normal, seu Justo e dona Lourdes…tudo normal.

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