O Tênis Vermelho | Escrito por Nilton Victorino Filho

A roupa que os internos usavam eram produtos de doações, claro que muitos tinham roupas que as mães davam, no entanto, esse não era o meu caso, desde que entrei no Educa, até o meu primeiro salário na P.G. E, minhas roupas vinham da rouparia central, que era comandado pela dona Djalmira. Essa já havia trabalhado no lar 22, a fama de enérgica vinha desse tempo, é fácil que alguém diga que a senhora era seca.

Eu respeitarei a opinião de quem quer que seja, mas, minha visão das pessoas nunca se deixou ser influenciada por opiniões alheias. Pra mim, ela era uma personagem num papel trocado, eu á via como uma viúva dos romances de Josué Montello, uma aristocrata que se viu obrigada a conviver entre a plebe. Quando me lembro dos adultos da minha infância, são poucos os que tinham um sorriso no rosto, supõe-se que a carestia daquela época tirasse-lhes a alegria de viver, tempo de liberdade cerceada.

Ela olhava por cima dos óculos e raramente sorria depois que ela media a roupa no corpo, tomava distancia pra ver o caimento e dava a última avaliação, com a linha na boca, mandava que eu fosse embora, invariavelmente, eu lhe beijava as mãos.
Primeiro vinha a mão levantada pro tapa, depois o riso contra a vontade, logo em seguida o grito:
_Vai embora, menino abusado.
A sala dela ficava na administração, eu trabalhava com o seu Tinoco, dizia que, pelo fato de eu ser magricela o caimento era perfeito, mas que eu não confundisse isso com um elogio.

Mês de Dezembro, todo mundo experimentando a roupa da Liga e ela me deixa por último, com razão, quando chegou a minha vez ela me vestiu, além da roupa da Liga, uma calça boca de sino preta, uma camisa branca social e um colete, viu que nada precisava de ajuste e, por cima dos óculos de gatinho, me surpreendeu:
_Parece um dos Jackson Five.
_O Michael ???
_Não, o Germany é mais bonitinho.
Às vésperas de eu ir pra escola nova, encontrei com ela no caminho do mercado Paraná, eu subindo e ela descendo, gritou do outro lado da rua João de Lourenzo:
_Passa lá, que eu tenho um presentinho.
Depois do grito, fez sinal para que eu não atravessasse a rua pra beijar-lhe as mãos.
Depois de comprar as guloseimas corri pra ver o presente, um tênis Tiger vermelho, embrulhado em papel de presente.

A coisa mais linda do mundo, embrulhado e com dedicatória, o que indicava que esse não fora doação e, dessa vez, não tive que roubar a mão para o beijo, ela mesma as esticou. Virou objeto de adorno, não fui pra escola com ele, ficava trancado no meu armário o tempo todo. Um dia, tive a infeliz ideia de ir ao estádio calçado nele.
Sem muito dinheiro fui pra geral do Morumbi, meu timão jogando e nada de visão boa do campo, fiz o que sempre fazia, esperei os policiais se distraírem e escalei a cerca que separava a geral das cativas, um dos PMS voltou e segurou meu pé, como eu não parei, arrancou o tênis do meu pé esquerdo.

Pulei pro outro lado e iniciei a corrida, mas parei me lembrei do sorriso da dona Djalmira, voltei pra cerca e falei pro policial:
_Eu volto, pode até me levar preso, contanto que me devolva o tênis. Surpreendido, o policial perguntou o que fazia daquele tênis tão especial assim, outros policiais se juntaram, balburdia no estádio e eu gritando pra explicar a procedência do calçado. Devolveu-me o tênis e me conduziu à saída do estádio.
Não queria assistir mesmo, nesse dia o Corinthians perdeu.

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