A Hora E A Vez Do Zabé | Escrito por Nilton Victorino Filho

Como eu disse antes, além do fato de ele não gostar de ser chamado pelo apelido, o amigo era escravo de comportamentos e horários regrados, nascer e crescer em colégios e passar uma vida toda de regras estabelecidas, dá a qualquer ser humano essa condição, condição de relógio.

Não era só o Carlos Alberto que era assim, eu mesmo, quando me mudei do 14 para o pavilhão 22, passei uns oito meses sem subir o caminho da direção da administração, mesmo que fosse mais rápido esse, minha mente se acostumou a, quando entrava no Educandário Dom Duarte, tinha que ser beirando o campão, tendo à minha direita a fileira de prédios mais linda de todas. Mesmo não sendo o “anjo negro” o único a ter esse comportamento, ele estava sempre em local público, todo mundo o via, ele era uma espécie de relógio natural, quando alguém o visse descendo da cozinha central, rumo ao aprendizado, tinha certeza que faltavam dez minutos para as sete horas, caso ele descesse da administração para a bica, eram cinco e meia, tudo regular.

Sendo o Zabé assim, ninguém jamais poderia imaginá-lo nunca, às oito horas da noite, fora de seu quarto na pensão…a menos que, alguma coisa saísse totalmente do normal.

O seu Felipe porteiro se alfabetizou nas salas do Mobral dentro do aprendizado, isso fez com que ele ganhasse o gosto pela leitura, quando ia para Pinheiros comprava nos sebos de rua, dois livros, um para ele e um para mim, no fim eu ficava mesmo com os dois.

Um belo dia, ele viu um livro que tinha na capa uns homens com espingardas aos ombros, imaginou que se tratasse de um faroeste, comprou o livro e o trouxe para me mostrar.

_Seu Felipe, isso é um clássico da literatura brasileira, não é um faroeste não.

Com o livro “A hora e vez de Augusto Matraga” na mão, eu doido para lê-lo, o seu Felipe impôs uma condição:

_Esse livro, só te dou se você ler para mim, enquanto isso ele fica comigo.

Combinamos assim…oito horas da noite, assim que eu chegasse da escola, iria à pensão e fazia a leitura, calculei que isso fosse empreita para dois dias, no máximo.

Naquela mesmo noite, desci do 22, bem pertinho dali e o abusado do seu Felipe, já de pijamas, pediu que eu não começasse a leitura antes que ele se acomodasse debaixo das cobertas, o Zabé se achegou tímido, o Luis Paulo e o Zézinho que estavam de saída ficaram para ouvir a narrativa, o seu Bernardo me trouxe uma cadeira e se acomodou, o Ditinho ficou na porta morrendo de sono.

Não me foi difícil, no outro colégio eu costumava ler passagens a Bíblia na igreja lotada.

Trata-se de uma vingança, esse livro do mestre Guimarães Rosa, os ouvintes sentiam e vibravam com a narrativa, como se estivessem no cinema, por vezes, eu tinha que esperar os comentários se cessarem para continuar a leitura.

O que eu me esqueci de contar, ou fiz de propósito mesmo, é que era uma noite muito fria aquela, quando sai daquele quarto quente da pensão, ganhei na cara uma lufada de vento gelado com garoa, cheguei no pavilhão 22, duzentos metros dali, espirrando violentamente e fui deitar com febre, fiquei sob os cuidados da dona Helena, que ameaçava o tempo todo chamar o irmão Wilson.

A febre seguiu o dia todo e, contra a minha vontade, me deixei ficar na cama.

Acordei suado em papas e assustado, a dona Helena atarantada a me chamar, já eram oito e quinze da noite e o neguinho Zabé estava com cara de poucos amigos, transtornado mesmo e com o livro na mão:

_Isso não se faz, compromisso é compromisso.

_E não vê que estou doente, seu maluco??

Me deu o livro, pegou dois travesseiros das camas vizinhas, enfiou-os em baixo da minha cabeça, sentou-se na cama ao meu lado esquerdo e abriu um sorriso:

_Prontinho, agora termina a leitura.

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