O Melhor Dos Amigos |Escrito por Nilton Victorino Filho

Amigo é coisa de alma, você conhece a pessoa e sabe que vão caminhar e evoluir juntos. No caso do meu amigo Viana, a coisa aconteceu diferente, logo que cheguei no Educandário Dom Duarte, veio a repulsa e…Pah. Saímos no braço e, junto com ele, peguei o meu primeiro castigo no corredor, o castigo era pra ser até a meia noite, nós dois em pé e o vigilante Nenê em sua mesinha, lá pras 21 horas, ele ferrou no sono, roncava e bufava e, com intervalos de minutos, peidava.

Assistindo aquela cena bizarra, segurando a boca com as mãos, rimos a valer, depois de um tempo veio a primeira armação da dupla, sem combinar nada, entramos pro segundo quarto e fomos dormir.
Lá pras 5 horas da manhã, como éramos vizinhos de cama, o vigilante nos sacudia, nos perguntou o que é que fazíamos deitados, na maior cara dura, o Viana disse:
_À meia noite em ponto, o senhor nos liberou do castigo.
_Foi mesmo, não se lembra? Disse eu, ainda sonolento.

Fazia frio, além do gorrinho que lhe tapava as orelhas, ele estava embrulhado num cobertor ordinário, tirou o gorro da cabeça, os olhos vermelhos de quem acabara de acordar, contrariado coçou a cabeça, ficou um tempo a nos fitar, creio que tentava buscar a cena na memória, depois duns breves segundos, sorriu e nos pediu desculpas.

Já os meninos estavam todos acordados, de desaforo, o Odilon deu-nos a obrigação de limpar o banheirão, essa seria a nossa escala a partir daquele dia, fomos sem nos olhar, começamos a limpeza em silêncio, a cara do vigilante a nos perseguir na memória, a cabo de alguns minutos não aguentamos mais e desatamos em gargalhadas, o Sergio passou no corredor e nos viu caídos no chão, abraçados e rindo, deu de ombros e disse:
_Ontem estavam se matando… só tem doido nesse lugar.

E rimos mais ainda, começava ali, a história da dupla dinâmica do 14. Não nos largamos mais, às vezes em trio, quarteto ou em bando, mas sempre a corda e a caçamba. Nessa época, eu já era viciado em leitura, alguns adultos, feito o seu Tinoco, o seu Felipe da portaria e o Ditinho, compravam livros em sebos e me davam, meu armário não tinha espaço pra roupas, era abarrotado de livros.

Para conseguir lê-los, tinha que fugir do amigo, procurar um lugar calmo e desfrutar da leitura, eu ficava no bosque, deitado à sombra da Araucária, enquanto os amigos batiam as proximidades à minha procura.
Ganhei o “São Bernardo” do Graciliano Ramos do seu Tinoco e usando as palavras dele, me acabei na leitura, puro deleite.
Li esse livro em dois dias e, como fiquei sumido nesse meio tempo, pra me desculpar, contei a história todinha pro amigo, tudo mesmo, todos os detalhes dos personagens e a implicação política desta maravilhosa obra do autor alagoano.

Éramos muito diferentes, como dois lados de uma moeda, intelecto e habilidade em corpos diferentes, ele admirava a minha capacidade de assimilação e eu admirava a sua capacidade prática, em tudo o que eu não tinha habilidade motora, ele era craque.
Passaram-se alguns anos, nós já no 22, comecei a participar de reuniões estudantis, o amigo me seguiu, disse que estava preocupado com os rumos do país, toda aquela conversa pra boi dormir e tal e coisa, depois soltou uma sonora gargalhada e disse;
_Cara, tô louco pra dar um sal nas estudantes.
Anos atrás, fiz uma palestra pra jovens estudantes e me perguntaram qual era a motivação do jovem da periferia na luta contra a ditadura, respondi na bucha:
_As calças apertadas das estudantes. A plateia veio abaixo, os risos duraram uns cinco minutos.

Voltando a história, esperávamos nas escadas do Santa Amália e pra impressionar uma loirinha, o Viana começou a debater com um estudante, o tema era Graciliano Ramos, o outro falava e o Viana rebatia, parei e fiquei admirando a contenda, orgulhoso do amigo, discorreu sobre tudo com maestria e tudo com palavras simples, acaba que ganhou a disputa, como consequência, levou a loirinha pra um rolê.
Voltou da Fradique Coutinho cheio de marra, dentro do ônibus da Castro, eu disse:
_Caramba neguinho, nunca imaginei que você fosse acabar lendo o livro, fiquei orgulhoso de você.
No fim de uma gargalhada, ele me saiu com essa:
_Ler? Eu não li nada, tudo o que eu falei foi o que você havia me dito.

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