Maria Chuteira | Escrito por Nilton Victorino Filho

Voltando a aquele time da infância, que jogava valendo Tubaínas, além do Sebastião que, foi um capítulo à parte, houve uma menina também. Vou contar como conhecemos a Maria então.

Dois dos meus mais velhos amigos, já que os conheci com três anos de idade, eram o Fabiano e o Josué, o trio chegou ao Educandário Dom Duarte juntos, vindos da Casa da Infância do Menino Jesus, lá, juramos amizade eterna e, para nosso azar, separaram-nos, eu fiquei no pavilhão 14 e eles no 12 e, sendo os pavilhões vizinhos, continuamos andando juntos.

O Fabiano era um inimigo de estimação, por tudo, nos divergíamos, qualquer motivo era suficiente para um bate-boca, mesmo assim, não nos separávamos nunca, acima da testa dele umas fileiras de cabelos nunca desciam, por isso, todos o chamavam de Testão.
O Josué era desses amigos fieis, se eu resolvesse pular de um prédio, ele pulava antes, para me dizer se podia mesmo fazer, tinha os olhos estufados, então a alcunha de Batata.

Tendo todos 12 anos, formávamos um trio estranho, eu maior, o Fabiano de tamanho médio e o Josué menor, isso ficava pior quando o Djalminha do 21 se juntava a nós, o neguinho era dois anos mais velho e menor que o menor, o quarteto de esquisitos, essa amizade já beirava os dez anos. Estudávamos no Attiê e, por conta de umas aulas vagas, saiu o trio pela avenida Eiras Garcia, do lado esquerdo, paralelamente partia um córrego que descia tortuosamente, desde o Uirapuru e seguia até além o cemitério Israelita, nessa estreita faixa de terra, de frente ao antigo ponto final do Largo da Pólvora, começaram a construir uns prédios de quatro andares, perto da pista os operários construíram os alojamentos e um pequeno campo de terra batida.

Quando passamos, o peões nos convidaram a completar o time, perguntar se um interno queria jogar bola, era o mesmo que perguntar se macaco gosta de bananas, topamos, é claro. A Maria já estava em campo, tinha a nossa idade, olhos grandes e feições agradáveis aos olhos e, despida de qualquer feminilidade, vivia de chuteiras, meiões e shorts de futebol, jogava com os guris na rua, cansados de serem humilhados pela garota, os meninos do BNH a apelidaram, por maldade, de Maria Homem.
Ao vê-la, o Batata arregalou os olhos, o Fabiano o cutucou de leve.

Eu e o Fabiano paramos nas jogadas bonitas que ela fazia, a cada uma delas, os operários gritavam “Olé”, o Batata gritava “Ui”, o Fabiano ironizou:
_Como pode, um guri com olhos tão grandes, não enxergar um palmo à frente???
Num lance de rara beleza, o Josué saiu pelo canto da área e chuveirou à meia altura, a danada surgiu entre os adultos, soltou o corpo no ar e deu um sem pulo perfeito, a bola passou entre as pernas do goleiro, na hora de comemorar, a menina correu para o Batata e o abraçou, como se agradecesse a bela bola, daí até o fim da peleja o Batata emudeceu e a gente nunca havia imaginado que ele possuía essa habilidade.

Antes de sairmos, pedi que ela fosse ao colégio no dia seguinte, caso ela quisesse jogar conosco.
Quando passamos do arco da portaria, o Josué acordou:
_Nilton, você tem que chamar a menina para jogar, acho que estou apaixonado.
Tive tato para não ser pejorativo:
_Chamar, eu até posso, mas, quanto a sua paixão…

O amigo ficou contrariado, queria explicações. o Fabiano que era avesso ao cavalheirismo, gritou agastado:
_Sua besta do zóio de bomba, presta atenção…
_Hum.
_Da fruta que você gosta, a moça chupa até o caroço.

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