O Gêmeo Do Mal |Escrito por Nilton Victorino Filho

Em dias de verão, pelas tardinhas, o sol pintava com um amarelo vivo, o céu, por cima da mata da olaria Assim, os nossos dias eram coloridos e, não importava a condição de órfão, eu nunca estive sozinho na vida, tinha os amigos e alguns eram como irmãos, tinha meus autores e minhas canções, por vezes se misturavam o Guimarães Rosa e o Bituca e o meu viver a infância ia mesmo tomando jeito de literatura, literatura cantada.

Ainda guardava, da infância, o Belchior e o Casimiro de Abreu, esses nunca saíram da parede da memória, ao passo que eu crescia, outros gênios se juntaram à galeria, nomes novos para compor a sinfonia da minha vida, feito Beto Guedes e Érico Veríssimo.
No entanto, minha cultura não me fazia retraído ou tímido…jogava futebol, rodava pião, roubava frutas no pomar, pulava sela e enrustia bananas…feito todo índio do Educa.
Quando chegou a adolescência, um mundo novo sê-nos mostrou e, nos arrastou em seu redemoinho.

Esse mundo novo, se mostrava muito mais drástico e complexo, exigia respostas rápidas e atitudes firmes, num sentido mais amplo, a mesma cena que trazia o doce colo de uma mulher, podia ser precedida pela trajetória de um tiro em sua direção.
E nessa nova cena, o prazer do sexo vinha acompanhado do perigo eminente e, eles são parceiros antigos.

Primeiro, para acabar de vez com essa coisa de achar que um raio nunca cai duas vezes na mesma arvore, vou contar da Casa da Infância, por lá eu já havia me deparado com um sósia, o seu nome era Delevado… pessoas com o mesmo corpo, rosto. Tudo idêntico a você, são até comuns de acontecer, no entanto, a probabilidade dessas pessoas se encontrarem é muito remota, de estarem no mesmo país, na mesma cidade, no mesmo bairro…na mesma casa então…

Ainda que o Delevado fosse uns dois anos mais velho, nos divertíamos com isso, por vezes, ele ficava de castigo por mim e vice-versa, todos achavam que se tratava de gêmeos, o raio havia atingido a minha arvore uma primeira vez.
Quando passamos a curtir os bailes, eu já havia completado os quatorze verões e tinha uma dívida com o sexo oposto, por esse tempo eu devorava tudo o que se seguia em minha reta, não precisava ser bonita, se tivesse um corpo mais ou menos…o jacaré virava bolsa, paguei com juros e correções monetárias.

A Beth já havia comemorado seus vinte e quatro anos, quando me viu num baile na Santa Bárbara, entre os “Neguinhos do Educa’, disse que foi tomada de um inexplicável amor à primeira vista, me soou meio brega isso, mas relevei, uma pessoa com mais dez anos da minha idade, era bem provável que soubesse muito da matéria que me interessava nessa época, o sexo.
Ficamos e saímos pelas madrugadas e com o tempo fui descobrindo fatos de sua vida, que já era mãe e já havia tido uma união estável, a separação se deu por conta de seu cônjuge ter se tornado traficante, aliás, no começo dos anos 80, essas pessoas eram chamadas de contrabandistas.

Ah, o dito cujo fazia parte da gangue do Pivete, aquela turma que apavorava toda a vizinhança por esse tempo.
Num baile na favela do Uirapuru, me foi apresentado o ex da moça, assim que lhe apertei a mão, tomei um susto, ele também se assustou e juntos, demos um passo para trás…O raio havia caído de novo.
Foi como se eu me visse no espelho, os meus amigos e os amigos dele esfregaram os olhos e a Beth ria.

Um silêncio se fez, ficamos a nos olhar, pasmos e aturdidos…absolutamente tudo igual, até a altura.
_Prazer, Adir.
_Prazer, Niltão.
_Que doideira.
_Cara, você é bonito.

Se eu não dissesse uma besteira dessas, acabaria perdendo a minha identidade, as mais de 50 pessoas que estavam a ver a cena, contorceram-se de rir.
Então, como nem tudo na vida são flores, passei a ficar com medo de passear pelo João XXIII, numa dessas vai que…
Porém o medo não era tanto que pudesse me esquecer da satisfação dos carinhos da Beth e, é claro, continuei saindo com ela.

Conheci o pai dela, um trabalhador que saía de madrugada para trabalhar no Metrô, foi difícil colocar na cabeça dele que eu não era o Adir, aquele sujeito, que na cabeça dele, havia levado a sua filha para o mau caminho. Era de praxe, terminada a noitada, levávamos as moças para casa delas, somente quando a última era entregue, seguíamos para o pavilhão, todo o bando junto.

De frente do Attiê, existia um bar, ao lado desse, uma rua principiava uma queda e se descia para uma várzea, essa rua seguia até um escadão murado, que dava na rua Santa Bárbara, a Beth morava ali e era a última mina a ser entregue, o bando todo ficaria ao pé do escadão e eu levaria a moça em casa, uns beijinhos, umas afofadas e ia embora, tranquilo e calmo.

Depois dos beijos e carinhos, desci o escadão, os amigos estavam em frente ao posto de madeira, ouvi gritos nas minhas costas e me virei.

Era o pai da moça, eram umas 6 horas e o sol ainda não havia se apresentado, por conta disso, demorei a perceber o que ele trazia na mão direita, os amigos sumiram numa corrida e adivinhando o que ele carregava, apressei o passo.
Ele estava caindo de bêbado e gritava palavras desconexas, só se entendia que ele falava o nome do Adir.
Eu já corria, quando enfim entendi o que ele falava:
_Adir, seu filho da puta…vou beber o teu sangue.

Naquele corredor fechado o barulho do tiro foi ensurdecedor, quando dobrei a esquina, o tiro estraçalhou no poste de madeira, menos de um dedo do meu nariz, ganhei a rua e encontrei os amigos no Atite, mais dois tiros foram deflagrados e ele ainda gritava.
Na volta para o Educa, jurei que nunca mais ia para nenhum baile, aquilo era muito perigoso…no sábado seguinte, o Paulo fazia o melhor de todos os bailes da região, na hora da lenta beijei a boca da menina que eu nem conhecia e agradeci a Deus pela linda juventude.

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