As Manhãs De Domingo | Escrito por Nilton Victorino Filho

É certo que Ayrton Senna é incontestavelmente um mito, e quanto a isso, nada e ninguém vai apagar da memória do povo. Mas, tenho a impressão de que, quem não viu e viveu esse tempo, não alcança a verdadeira proporção dessa grandiosidade.

Sou paulistano, daqueles bem típicos, que torcem o nariz pra tudo e gostam de ser do contra, qualquer ideia, ou comportamento, ou filosofia, jamais conseguirá arrebatar metade das cabeças desse povo. Aí, vem um piloto e ganha a unanimidade, a ponto de fazer o povo acordar de madrugada, pra assistir um esporte que, a maioria deles sequer conhecia as regras e nem importavam, quando o carro do Senna quebrava era o fim da corrida, mesmo que fosse à primeira volta, os televisores eram desligados.

Todos sabem que a Várzea é mais que um costume, é uma espécie de religião, os adeptos desse esporte defendem seus bairros e cidades, como se defendessem suas famílias.

Em domingos de corridas do Senna, algumas Ligas não marcavam jogos pra esse horário, cansei de ver, durante as partidas, jogadores dos times adversários correrem pra torcida pra saber o andamento da corrida, no calor da peleja, alguém gritava:
O Senna está na frente. Os inimigos esqueciam as diferenças e comemoravam, quando a corrida acabava, o couro comia. Em 1991, eu trabalhava muito e ainda fazia bico, consertava rádios antigos pra me defender. Havia marcado uma visita pruma madame em Moema e ela possuía uma coleção de rádios dos anos 40 e 50, isso me daria o equivalente a uns 20 salários e eu não gastaria mais que 6 horas na empreitada. Tudo maravilha, quando eu marquei não sabia que haveria corrida, acordei cedo e a primeira vontade foi jogar o serviço pra outro dia, olhei meus filhos pequenos e achei que não seria certo, com o coração apertado me lancei ao sacrifício. Tinha que pegar um ônibus pro centro e lá, um que fosse pro Ibirapuera, meio caminho… Moema. No ponto do Educandário, várias pessoas se aglomeravam em volta do radinho do seu Felipe e o narrador já anunciava as posições da largada, não tive tempo de me encostar, já vinha o ônibus e entrei. Pouca gente no transporte, o motorista e o cobrador, dois guris no fundo, uma senhora de idade avançada que usava um torço na cabeça, dois bancos a frente dela uma senhora que as roupas denunciavam ser evangélica, à direita um senhor muito branco com bigode afinado, no banco mais próximo do cobrador um senhor escuro tinha um Motorola vermelho e ouvia a transmissão de corrida, tendo muito lugar vago, sentei-me ao lado desse, me sorriu e ajeitou o aparelho no colo, o cobrador inclinava-se para melhor ouvir, vamos embora. Largou mal o Senna, estava entre os quatro primeiros na largada e caiu pra posição 17. _Sem terror, o Senna busca. Disse o cobrador, eu e o dono do rádio rimos confiantes. No ponto da Praça Elis Regina o carro parou e entraram uns passageiros, sentaram-se perto de onde vinha o som da corrida, visivelmente irritado o motorista gritou: Ô meu senhor, aumenta o som que também sou filho de Deus.

Som no máximo, a dona do torço sorriu satisfeita, com um ar alheio a evangélica olhou pra fora da janela, já vinha acelerando o danado do Senna e recuperava duas posições.
Na Paineira, farol fechado, um caminhão da Eletropaulo emparelha o motorista pergunta pro nosso motorista sobre a corrida.
_Tá chinelando e recuperando posições, essa tá no papo.

Existe um clima de amistosidade no transporte, pessoas que mal se conhecem partilham da mesma alegria, ainda que a senhora evangélica pareça não dar à mínima, todos estão eufóricos, Senna pisa fundo e manda mais dois corredores pra fila, a senhora do torço grita:
_Ah, muléque abusado.

Em Pinheiros, no ponto da Faria Lima vem à tristeza, o dono do rádio levanta-se e puxa o fio pra descer, bastou uma fração de segundo e aquele homem passou de provedor da alegria para um odioso estraga prazeres.
Ônibus parado no ponto e deu à impressão que o motorista não ia abrir a porta, todos torceram por isso, o cobrador balançou a cabeça:
_Mano, aí já é sequestro.

O motorista muito contrariado abriu a porta, não sem antes rogar uma praga.
Entramos na Rebouças em silêncio, olhando nas ruas, procurando no vazio de domingo uma alma portando um rádio, a mulher evangélica não aguentou a pressão e gritou:
_A culpa é sua motorista, não devia ter deixado aquele homem sair.

O motorista não se defendeu como todos nós caiu na gargalhada, diante disso, a mulher analisou direito o que acabara de falar e nos acompanhou nas risadas, nesse instante, num dos prédios residenciais, vi um grupinho de pessoas reunidos na mesa do porteiro, paguei a condução e atravessei a catraca, disse pro motorista parar o ônibus, desci e ainda na escada perguntei, me responderam que já ia em sétimo lugar, voltei pro ônibus e todos gritaram de alegria.

Na passarela que dá acesso ao Hospital das Clínicas, o vendedor de doces, que também estava cercado de dezenas de pessoas, gritou que já havia alcançado mais uma posição.
Na Consolação, policiais e agentes do transito paravam as motos irregulares, no lado oposto do cemitério, infratores e cumpridores da lei ouviam a corrida, um homem em vias de ser algemado, gritou feliz.
_Ele já está em quinto lugar, Ayyyyyyyyyton Senna do Brasil.

Na Praça Roosevelt, vindo da Avenida São Luis, um rapaz muito magro com calção azul, camisa da seleção canarinho e capacete amarelo na cabeça, passou correndo e gritando que era o Senna em pessoa, não nos restou nada, que não aplaudi-lo.
Chegamos à Xavier de Toledo, final de linha, e havia uma televisão numa barraca de cachorros quente, juntamo-nos às centenas de pessoas que se acotovelavam e gritavam, vimos o Senna assumir a ponta e vencer mais uma, na bandeirada final, abraços e sorrisos.

Caminhei até a Sé, retribui os sorrisos das pessoas que comemoravam …oficialmente o domingo acabara de começar.

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