O Troco | Escrito por Nilton Victorino Filho

As vezes, as pessoas com quem convivi na infância, discordam do jeito com que eu descrevo as coisas e os fatos…pra eles, havia muito sofrimento naquilo tudo, e eu entendo isso.

Suponho que, se eu tivesse uma família ou uma casa e, fosse impedido de estar lá, o colégio seria um martírio sem fim, mas não é o caso, no meu caso o colégio era a minha casa, os meninos e os adultos eram a minha família, posto isso, eu tive uma infância maravilhosa. Eventualmente, haviam coisas tristes feito existem em vários lares, as coisas boas foram infinitamente maiores que nem vale a pena lembrar de que era ruim, quando lembro do guri que eu fui, sei que era feliz e sabia disso.

Quando tinha 17 anos, fui voluntário na F.E.B.E.M da Celso Garcia, tinha vontade de ser professor e resolvi fazer esse estágio, me passei por adulto e pensei que tinha conhecimento de causa.Fui ensinar futsal.
É claro que havia acabado de sair da infância, por esses tempos vivemos uma época de encantamentos românticos…o passo era muito maior que a minha perna.
Me enganei completamente, aqueles não eram menores carentes, eram infratores, desses pivetes que você mantêm distancia, só de encontrar na rua.

Alguns deles eram mais altos e mais fortes que eu, uns tinham barba, coisa que eu só fui ter com 30, eram avessos ao comando e bastava um gesto mais brusco e, se tinha uma rebelião, eu ia tentando e tentando…feito falar pra uma porta.Sem a vivência que só fui adquirir mais tarde, procurava um jeito de me fazer notar, uma deixa qualquer, pra que eu pudesse entrar no mundo deles.
Se me fosse permitido a entrada…eu poderia tocar seus corações. O tempo passava e, eu não conseguia me impor, não andava, se andava era pra trás e já mostrava sinais de cansaço.

Um grupo de meninos rebeldes que jogavam bola com uma habilidade de dar inveja aos profissionais da bola, com comportamento de meter inveja aos profissionais do crime, passei a rezar pro contrato acabar, convenci a mim mesmo que aquele não era o meu ramo. Por esse tempo, me veio à cabeça uma velha canção de Belchior, quanto mais eu me perdia, mais ela vinha forte…”Amar e mudar as coisas, amar e mudar as coisas”.
Como eu poderia amar e mudar aquilo tudo??mentalmente eu respondia ao cearense ilustre:
“A vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior”.
Estar ali, me irritava, às vésperas de chegar ali, meu corpo se recusava e, a alma me arrastava…minha alma é de uma teimosia de besta selvagem.

Dentre esses meninos havia um líder, o mais violento de todos, olhava pra todos com olhar desafiador, media quase 2 metros de altura. A conduta anti-desportiva fez com que ele fosse impedido de praticar esporte, mesmo com a proibição,, foi à quadra pra ver se revertia a situação.
Eu já havia iniciado a aula e os meninos estavam sentados no chão, diante de mim e, ele chegou-se afoito.

Não se desculpou, foi logo perguntando:
_O que eu posso fazer, cresci sem família, sem amor…a vida me fez assim, o que é que eu posso fazer???
Os outros guris permaneceram sentados, todos olhavam pra mim, como se a pergunta fosse deles também, com calma fiz sinal para que ele se sentasse também.
Do nada, o milagre havia caído no meu colo, eu os tinha em meu controle, respirei fundo e virei adulto:
_Você dá o troco na vida, não é preciso receber pra dar.
A interrogativa permaneceu ainda nos rostos deles, passei a contar da minha infância, sem maquiagem, tudo, só a verdade.

Do corredor da delegacia, até a saída do Educandário Dom Duarte, foi um longo caminho…pagando a generosidade das pessoas que me deram carinho, até não haver mais dividas. A aula, que deveria durar 40 minutos, ultrapassou as 3 horas e sequer encostamos nos materiais esportivos, percebi que eu tinha que contar a minha história, qualquer coisa didática e teórica jamais teria o mesmo efeito que a minha própria vivencia, havia chamado a atenção daqueles meninos.

Ao final da aula, pela primeira vez na vida, alguém me chamou de professor.
Essa foi a minha primeira turma e, tenho saudades dos títulos que conquistamos juntos.
Muitos anos mais tarde, estava eu com meus filhos e mais uns vinte meninos do meu time, fazendo churrasco no Parque do Piqueri, alguém grita o meu nome e, eu nem fazia ideia de quem pudesse ser, volto-me, tentando reconhecer.
Um homenzarrão vem em minha direção e me abraça, me apresenta 3 filhos lindos, conta como virou a sorte da vida e apontando pro filho mais velho, diz:
_O nome dele é Nilton…dei o troco na vida.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: