Davi e Golias | Escrito por Nilton Victorino Filho

Tudo o que eu sei de esporte e superação, aprendi no Educandário Dom Duarte, para falar a verdade mesmo, quando fui para a rua, faltava muito pouco para aprender.
No Educandário Dom Duarte, me acostumei a ver o Davi derrubar o Golias, sempre o time menor que vence o maior, ou o corredor descalço superar o adversário muito bem aparelhado, passei a infância vendo e vivendo essa história.

Para não perder a oportunidade de uma boa lembrança, vai a passagem nossa, num jogo no estádio do Ibirapuera:
Mais uma vez nos aterrorizamos por ver, do outro lado do campo, os atletas do Cristo-Rei, primeiro pensamos que confundiram as categorias, os caras eram maiores, muito maiores, todos usavam chuteiras de cravo e nós…Kichute.
O professor Claudinei dirigiu-se a nós, na maior calma do mundo.
_. Não esquenta não…os caras são grandes, mas a bola é redonda e as traves tem o mesmo tamanho, para os dois lados. Saiu rindo, como se fosse um mestre chinês.
Como se aquilo fizesse algum sentido.
Ainda no primeiro tempo, bati uma falta, joguei a bola na gaveta (nisso eu era bom), o professor, que nesse momento saboreava um sanduba, gritou com a boca cheia:
_. Está vendo aí, ele é grande, mas não voa!
Incentivado por isso, ainda que, não fizesse o menor sentido, fomos para cima e vencemos o jogo pelo placar de 7 a 0, ao final do jogo, o goleiro quis conhecer o autor do gol de falta, me cumprimentou e disse:
_. Eu sabia que quando vocês começassem a jogar bola, seríamos massacrados.

Fiz com os ombros que não havia entendido e queria saber o porquê da afirmação, na maior tranquilidade ele falou:
_. Vocês são do Dom Duarte, vocês são assim.
E saiu, nesse momento, o resto do time do Cristo-Rei cercava o Pelezinho, o neguinho havia feito uma partida perfeita, assinou 4 gols, deu duas assistências e sofreu a falta que eu converti, o Faustino passava orgulhoso de peito estufado e o Baianinho do 11, só faltou distribuir autógrafos.
Cresci à sombra disso, ou essas coisas me fizeram crescer, sai do colégio e me tornei adulto, mas fiquei por perto, sempre que podia entrava e matava saudades da minha casa.

Por ser vizinho do colégio, meus filhos passaram a frequentar as aulas no grupo escolar e na Ozem.
Nessa época eu já havia montado a minha agremiação, metade dos alunos do ginásio jogavam nela, num belo dia, por não ter um professor de Educação Física, a diretora me convidou para montar um time e disputar os jogos escolares.

Não hesitei, aceitei na mesma hora e com o entusiasmo de quem vai reviver um sonho.
Mas os tempos eram outros, pude ver nos olhos dos internos, assim que se apresentaram, esses meninos eram falastrões, indisciplinados, mimados e arrogantes, me lembro dos internos Kalunga, Antonio e Floriano e daquele que posteriormente viraria o Mendigo…O Carlinhos, que era lateral direito.

Meu sonho se quebrou, com a prancheta na mão, olhei para o grupo, deu vontade de dizer à diretora que havia me arrependido, se não fosse pelos jogadores do Dínamo, que estavam ali também, eu teria feito, pensei que um jogo no comando desse time pudesse completar um ciclo, simbolicamente, eu devia…a mim e aos meus amigos de infância. Rezando pra a tortura acabar logo, me apresentei no dia do jogo, enquanto escutava as abobrinhas dos meus jogadores no aquecimento, o ônibus do colégio adversário chegou, dele desceram uns guris escurinhos e tímidos, todos pequenos pra idade, olhei pro céu, que ameaçava escurecer naquele momento e entendi a ironia do destino…Eu não só havia crescido e virado adulto, havia me tornado o Golias, Alex o meu fiel escudeiro, viu que eu tinha um sorriso de incredulidade no rosto e deu a estocada final, disse que aqueles guris eram alunos do Solano Lopes.

Eu sempre fui admirador do trabalho de base da escola do Jardim Boa Vista, dei de ombros e chamei meu time, passei as instruções, não ia tombar sem luta.
Aqueles meninos pequenos deitaram e rolaram em cima do meu time, eu comandava os gigantes e torcia para o Davi, no fim do jogo entreguei a prancheta para a diretora, diante da pergunta se eu ia continuar no comando, fiz um silencio e não mais voltei.

Como eu disse, não sou santo, me vinguei do Solano Lopes, meses depois, comandando o colégio Palmares.

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